14 URBE | # 02/04 | CORES URBANAS LEO FELIPE ideais éticos de liberdade, tolerância e caridade como apenas mais um jogo social de poder. Para Bhabha, “a metró- pole ocidental deve confrontar sua his- tória pós-colonial, contada pelo influxo de migrantes e refugiados do pós-guer- ra, como uma narrativa indígena ou na- tiva interna a sua identidade nacional .” (p. 26). Na construção de tal narrativa, a tradução é ferramenta imprescindível. A tradução é o processo que possibili- ta a recodificação dos signos, produz a comunicação entre grupos em atrito pelos deslocamentos pós-coloniais, engendra cultura ; a tradução é uma resposta, uma reação ao movimento que conduz ao choque. O punk: uma tradução cultural Formado em 1976, em Londres, o gru- po The Clash (O Choque, em tradução livre) é um dos mais significativos expo- entes da subcultura punk que emergiu na Inglaterra em fins dos anos 1970 – ela própria uma versão de um movi- mento estético, musical e compor- tamental que vinha acontecendo no submundo artístico de Nova York e em outras cidades dos Estados Unidos des- de o início da década. O punk insere-se emuma tradição de subculturas juvenis, urbanas e proletárias que se sucederam no país após a II Guerra Mundial (sendo seus antecessores teddy boys, mods e skinheads), sintetizando em seu estilo elementos de todas elas. Estas subcul- turas, conforme apontou o sociólogo Dick Hebdige 1 no seminal estudo Sub- culture: the meaning of style , devem ser “reinterpretadas como uma sucessão de diferentes respostas à presença da imigração negra na Grã-Bretanha a par- tir dos anos 1950.”¹ (1991, p.29). A sucessão de formas subculturais brancas pode ser lida como uma série de adaptações estruturais profundas que simbolicamente acomodam ou ex- purgam a presença negra na comunida- de hospedeira. É no plano estético: nas roupas, na dança, na música; em toda retórica do estilo, que encontramos o diálogo entre negro e branco muito sutilmente e compreensivelmente re- gistrado, embora em código. (p. 44-45) O estilo punk é, para Hebdige, fruto de uma relação racial, trata-se de “uma tradução branca da etnicida- de negra” (p. 64), uma resposta codifi- cada ao movimento (ao patoá, à mú- sica, ao gestual, à postura política) dos imigrantes negros, principalmente os oriundos das chamadas Índias Ociden- tais, das quais faz parte a Jamaica. Os imigrantes deste país que chegaram à Inglaterra massivamente a partir do iní- cio dos anos 1950 trouxeram com eles sua cultura (a religião rastafári – ela pró- pria de caráter sincrético –, o consumo de ganja e os ritmos como rock steady, ska e reggae) que rapidamente ganhou penetração entre jovens proletários londrinos sendo recodificada, dentre outros, no estilo punk.

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