15 URBE | # 02/04 | CORES URBANAS Descrevendo, interpretando e deci- frando estes códigos, podemos cons- truir uma oblíqua contagem das trocas ocorridas entre as duas comunidades. Podemos assistir, encenadas nas su- perfícies carregadas das culturas pro- letárias juvenis britânicas, uma história fantasmagórica das relações raciais desde a guerra. (p. 45) O Clash é um produto dessa tra- dução cultural. Na canção White riot , pri- meiro single do grupo, lançado emmar- ço de 1977, o vocalista Joe Strummer clama por sua própria revolta branca, em referência aos conflitos raciais que haviam tumultuado o carnaval caribe- nho de Notting Hill, no verão londrino do ano anterior, quando foliões, incomo- dados pela presença massiva da polícia, iniciaram os tumultos. A canção, que foi mal-interpretada por nacionalistas ne- onazis como apologia da raça branca, era, na verdade, um comentário sobre a necessidade da classe baixa branca se revoltar contra a sociedade opressora da mesma forma que o faziam os “irmãos” negros. As traduções (sujeitas a más in- terpretações) nem sempre tem um ca- ráter positivo. Fenômenos complexos que são, podem se apresentar como um tipo de resposta “negativa”, o que pode- ria ajudar a explicar o perigoso fascínio do punk pelo fascismo e a relação entre hardcore e nacionalismo. No campo estético, a cultura ja- maicana também traria a influência do reggae, o gênero musical mais ouvido pelos primeiros punks ingleses que se identificavam com a natureza rebelde desta música. O processo de tradução ainda geraria um estilo musical híbrido, odubpunk praticadopor, dentre outros, o próprio Clash. O subgênero sobrepõe (para usar um dos conceitos caros à filo- sofia de Bhabha: o da sobreposição dos domínios da diferença) o minimalismo e a distorção, característicos do punk, à batida pulsante do baixo e ao ritmo hipnótico, típicos do dub (um tipo de reggae ainda mais arrastado e esparso, normalmente com poucas linhas vocais e muitos efeitos de eco). No punk, que “nasce de um mo- vimento de afastamento do consenso” (HEBDIGE, 1987, p. 132), a dissonância e a dissidência, enunciadas pelos excluídos A evolução histórica do homem neste início de século XXI é marcada, talvez na falta de melhores expressões, por uma característica comum que denota tanto superação quanto consequência e está presente no uso repetido de um determinado prefixo
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