16 URBE | # 02/04 | CORES URBANAS a partir das fronteiras da cultura, são ra- dicalizadas em resistência e recusa, atri- butos básicos de toda subcultura, que, apesar disso, não está imune a posterio- res diluições, incorporações e retradu- ções. A subcultura assimila os códigos da cultura alienígena e os recria, isolan- do-se em um estilo de vida que, em um primeiro momento, não pode ser com- preendido pelos grupos hegemônicos (pais, escola, polícia) que o condenam. Na etapa posterior, graças ao papel dos veículos de comunicação demassa, o es- tilo transgressor vai sendo categorizado e diluído, tornando-se mercadoria. Este é o processo de incorporação do qual fala Hebdige e ocorre quando os signos subculturais (roupas, música, etc.) são convertidos em objetos de consumo de massa e o comportamento divergente é categorizado pelos grupos dominantes. Passado o choque inicial, a estranheza é aceita, pois ela está estampada diaria- mente nos jornais sensacionalistas, que vendem a sua custa. Assim aconteceu com o punk: enquadrado pela mídia e abduzido pela indústria fonográfica, transformado em franquia de rebel- dia, exportado ao mundo na forma de produto. O punk como mercadoria e suas retraduções: pós-colonialismo transformado em pop na música de M.I.A. O punk faz então, como produto, o contramovimento: do centro em que foi originariamente produzido, a partir de choque e tradução, em direção às margens, em que novamente será LEO FELIPE traduzido em expressões próprias de identidades não menos complexas (vale notar a importância dos meios de comunicação na formação das identidades), muitas vezes, hibridizando- se com expressões culturais nativas. Ocorre uma retradução, corrompida, impura e viva. Hoje, quase 40 anos após seu surgimento, ele pode ser encontrado nas Américas, espalhado por toda a Europa, na África e até no Oriente (em fins de 2011, dezenas de jovens da Indonésia tiveram seus cortes moicanos, ofensivos à tradição islâmica, raspados pela polícia). A partir de associações com outras formas musicais, como com a música eletrônica e um tipo de música étnica (novamente o sincretismomusical operando na construção da cultura), o punk ainda é capaz de proposições artísticas de valor. A ex-pintora e rapper de origem anglo-cingalesa M.I.A. (Maya Arulpra- gasam, 1975) parece encarnar em vida e arte as teorias pós-colonialistas. Filha de um exilado político emigrado para a Inglaterra, M.I.A. (sigla para “missing in action”, uma expressão que designa combatentes mortos em ação) habita um desses entre-lugares, integrando um novo internacionalismo, por suas origens e associações artísticas. Ela in- corpora em sua obra sincrética uma es- tética terceiromundista (funk carioca, es- tamparia africana), elementos da cultura urbana (grafite, rap), o tom dissidente

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