17 URBE | # 02/04 | CORES URBANAS O local de onde M.I.A. canta Paper planes é a própria fronteira, com o fluxo dos trens que a deixam enjoada, a exi- gência dos vistos de entrada e sua falsifi- cação. Mas ela está do lado de dentro, na metrópole, aprendendo a fazer o jogo do poder e o sabotando ao mesmo tempo, oferecendo falsos vistos a forasteiros que quiserem entrar nomesmo jogo. Omani- festo sonoro, político e multiculturalista é destinadoaosantigoscolonizadores: tudo o que ela quer é tomar o dinheiro deles, seja ocupando os postos de trabalho, seja a força, seja a tiro, em revide por séculos de exploração. E assim, M.I.A. toma parti- do dos pós-colonizados, ofensivamente. Retraduzindo o que antes já havia sido uma tradução (a canção punk do Clash), a artista – ela própria uma tradução, um fruto dos movimentos pós-coloniais, filha de exilados, migrante, internacional – ins- tala-se nesse terrenomovediço de fluxo e trocas, cores mistas, refúgio e exílio, dife- renças inconciliáveis e diálogo necessário, o próprio local da cultura. A fantasmagórica história das rela- ções raciais presente na Londres punk de 1977 (e cristalizada na música do Clash) é reencenada por M.I.A., que, tal qual um teórico pós-colonialista, sabe perfeita- mente em que lado do jogo está. O tabu- leiro deste jogo é o ambiente urbano das grandes cidades. Nelas, talvez se encontre a promessa de futuro presente no prefixo que nomeia, ainda que imprecisamente, nossa suposta evolução (social, cultural, política, econômica). A urbe – cosmopoli- ta, turbulenta, marcada pela presença do outro, a urbe das identidades complexas – é o espaço intermediário das traduções. notas 1 Todas as traduções de Hebdige são do autor 2 Em tradução livre: Voo como papel, subo como aviões / Se você me pegar na fronteira, tenho visas emmeu nome / Se você vier aqui, eu os faço o dia todo / Faço um rapidinho se você esperar / Às vezes me sinto enjoada em trens / Todo passo que dou estou no ritmo do jogo / Todo mundo é um vencedor, estarei fazendo a minha fama / Malandro de primeira fazendo meu nome / Tudo o que eu quero é BANG BANG BANG BANG e tirar o seu dinheiro Leo Felipe é mestrando em História, Teoria e Crítica no Programa de Pós-graduação em Artes Visuais da UFRGS. É jornalista e DJ, autor de dois livros de ficção (AUTO e O Vampiro). Atualmente, coordena a Galeria de Arte da Fundação Ecarta. referências BHABHA, Homi K. “O local da cultura.” Trad.: Myriam Ávila, Eliana Lourenço de Lima Reis, Gláucia Renate Gonçalves. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998. HEBDIGE, Dick. “Subculture: the meaning of style.” 3ª reimpressão. Londres: Routledge, 1991. herdado do punk, além de um discurso político totalmente comprometido com os marginalizados, exilados políticos, perseguidos e revolucionários. Uma de suas composições mais conhecidas, Paper planes (2008), é produto exemplar do processo de tra- dução cultural de que nos fala Bhabha. A canção é construída pela estratégia do sampling (amostragem, em tradução li- vre), baseada na apropriação de trechos de obras musicais existentes para a cria- ção de uma nova. A fonte (ou sample), no caso, é uma canção do Clash, grupo que traduz as relações raciais codifica- das no punk. Sob a base eletrificada de sintetizadores de Straight to hell (1982), M.I.A. canta as duas primeiras estrofes, duplamente: I fly like paper, get high like planes If you catch me at the border I got visas in my name If you come around here I’ll make’em all day I get one done in a second if you wait Sometimes I feel sick on trains Every step I get to I’m clocking that game Everyone’s a winner, I’ll be making my fame Bonafide hustler making my name E no refrão, ajudada por um coro de crianças e efeitos sonoros de tiros e de uma campainha de caixa registradora: All I wanna do is BANG BANG BANG BANG And take your money ²

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