22 URBE | # 02/04 | CORES URBANAS gabriela silva Notas para retratos: como o céu estava hyvé (Cinza concreto: pilotis de edifício sem pinturas externas, somente acaba- mento de alvenaria. Criança de 5 anos, vestida com um abrigo, bola de vôlei na mão. A criança joga a bola contra a parede repetidas vezes e de formas di- ferentes, por cima da cabeça, jogando a bola para que pique no chão antes de chegar na parede. Planos-detalhe na mão e na bola, no pique do chão e na bola batendo na parede.) Cresci em um cinza cimento que julgava ser quase sem fim. Estendia-se do portão marrom e barulhento da ga- ragem, passando pela primeira desci- da que ia até a rua, esta mais íngreme, e uma segunda que começava após a passagem em frente a um pequeno depósito de bujões de gás. E era nesta passagem, para desespero dos vizinhos (agora eu entendo) que a primeira parte era a preferida pelos skates, a lateral do gás era usada pelas bolas e a segunda permitia umas boas primeiras pedala- das de bicicletas. Anos depois, tudo isso acabou sendo prejudicado pelas grades, que foram colocadas em toda frente do prédio, criando uma barreira para a rua e fazendo com que nós, as crianças de apartamento, deixássemos que nosso grande aliado, o paredão cinza, não ser- visse mais para passar nosso tempo ou para sociabilizar ou ainda para experi- mentar a nossa forma mais próxima de estar ao ar livre de uma forma segura. (Verde Amazônia: sala com plantas em diferentes pontos e de di- versas alturas. Em cada uma das late- rais uma samambaia, sendo uma delas muito extensa, chegando até o piso do ambiente. Os demais vasos e plantas podem estar nas prateleiras, suspen- sos em vasos ou nas mesas. Panorâmi- ca lenta de planos detalhe das plantas de uma samambaia à outra. Filtros de destaque verde e luz matinal.) Não entrei em muitas casas dos demais vizinhos, mas nosso espaço mais imediato de ar livre era este corredor de linhas retas dos anos 1970 e, em casa, tí- nhamos muitos verdes. Eu e meu irmão brincávamos, em certos momentos, que a zona da sala, curada e cuidada pela minha mãe, era a floresta amazônica. Era, provavelmente, uma época em que esta tinha mais de sua imensidão para nos impressionar. Duas grandes samam- baias, que agora sei que acabavam com toda a umidade da casa, espalhavam-se com outras espécimes que vinham tan- to dos jardins da casa dos meus avós no interior quanto de trocas comos amigos, sementes plantadas, nunca tive o cuida- do de pensar de onde vinham nossos convivas de casa. Ver uma planta crescer, entender do processo de amadurecimento dela e de seu ciclo de mudanças ao longo do ano eram coisas cotidianas, mesmo que exercidas só pela minha mãe que sempre teve a “mão” para isso. Só mais tarde é que percebi que essa convivên- cia é uma dessas noções de que é preci- so chamar a sala de floresta amazônica para se ter, e que muita gente não en- tende, o trabalho que uma terra dá. E isso, é claro, quando começa- mos todos a ter uma maior percepção dessas coisas, com um velho Lutz na televisão mostrando um copo de água e indicando a quantidade de fezes es- condidas ali. A cozinha ganhava mais
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