25 URBE | # 02/04 | CORES URBANAS acreditava e comecei minha primeira leva de conflitos mais sociais, de reco- nhecimento de identidade, de cidadã. (Preto: chip de sequência de fo- tos ou desenhos realistas de pessoas ou grupos em uma rua. Fundos mos- tram uma grande avenida, hora com um paredão de edifícios, hora com o início de um parque. Destaques: pes- soas sentadas no chão e nas calçadas, camisetas de banda, barba, copos plásticos grandes nas mãos ou garra- fas de plástico – mas sugiro evitar o uso de garrafas de plástico no contex- to. Preto e branco em alto contraste. Nunca cheguei a ser punk, ter um estilo que encaixasse muito em uma das “tribos”, passei a ser uma menina do teatro. Vestia preto mais pela questão estética da criação de um personagem nulo, lendo Stanislavski para entender melhor a construção das utopias por meio de uma brincadeira cênica. Focos de luz onde a gente queria, falar as coi- sas em um sentido ação-plateia que era construído a partir do que tinha para ser dito, mesmo que a resposta de lá para cá não viesse. O exercício dos personagens me desdobrou emmais uns, permitindo uma saída do circuito entre nossa casa e a escola, percebendo que o mundo que se abria era bem diferente daquele que os outros ali estavam dispostos a convi- ver. Mesmo de preto, confundida com os grupos de meninos e meninas que se aglomeravam pela frente do João, fui apresentada à boemia da cidade em uma rua, sentada à beira da calçada, jogando papo fora entre um drinque e outro. Estávamos lá pelo drinque, é cla- ro, era uma adolescente, mas também pelo universo de figuras diferentes que ali transitavam, pelos shows de rock e pela sensação maravilhosa de ver a rua se enchendo aos poucos até o ponto de não permitiremmais os carros passarem. Pensava em como era forte o poder do espaço do encontro público a ponto de barrar a circulação no entorno e de criar um microcosmos de trocas que até hoje nos traz referências dessas personagens ou desse tempo. (Cinza Guaíba: detalhes de águas revoltas do rio, com passagens de vento, embarcações, pássaros. Pla- nos um pouco mais longos e estáticos, sendo detalhes ou panorâmicas. Bus- car alternância na luz, dias e horários durante o dia. Com chuva ou com sol.) Meu saudosismo para por aí, pois logo a gente percebe que os microcos- mos são muitos na cidade, todos simul- tâneos e alguns efêmeros, pois naquelas mudanças e derrubadas de muros (mes- mo que não tenhamos ainda feito igual), junto com a liberdade que nos foi dada, das trocas e de expansão, veio também um grande conjunto de ideias de fim de século que fortalecem essa percepção de efemeridade: as sinapses da circula- ção em rede, o fim da história, liquidez; assim, nos acostumamos mais com o que está de passagem, de volúvel, de evento. Foi quando o centro da cidade virou minha casa e o rio meu vizinho. O canto da cidade permite uma perambulação em um mar de micro- cosmos simultâneos, de diferentes lei-
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