26 URBE | # 02/04 | CORES URBANAS gabriela silva turas da cidade, de sua geografia. Gosto da subida do viaduto pelas escadas da Verão, pois ela dá vista para edifícios antigos. Passei a apreciar o recorte da cidade pelas águas, nosso avanço sob elas, ora com mais edifícios, ora com arte, mesmo a última causando mais polêmica. Todos os microcosmos tra- zem uma percepção estética construída a partir do que consome esteticamente daquilo que lhe é ofertado. Aquilo que nos mostrava ser necessário trocar mais também é composto de um elemento de obrigatoriedade de percepção do outro, de reconhecer sua existência e posicionar-se com relação a ele. Essa noção de acesso é, talvez, um dos gran- des dilemas do bommocismo do nosso tempo: será que vai dar para todos? (Hyvé: planos na estrada de lis- tras do horizonte em diferentes ho- rários do dia.) Por isso, recorremos à autoajuda, e Barthes é meu livro de autoajuda, um dos de cabeceira, daqueles repleto de frases, de como as coisas sempre podem ser vistas de um ponto diferente. Nos seus “fragmentos de um discurso”, os títulos nos guiam pelos ideais e pelas ilu- sões do ser amoroso, daquele que cria, inventa, soluciona, destrói, uma Phoenix dos pampas, a partir de referências filo- sóficas e literárias (referências que não são nada pouco, Goethe, Platão). Te- nho tido apreço especial pelo capítulo que trata do encontro e tem este título “como o céu estava azul”. O azul de Bar- thes é aquele que eleva o ser amoroso para uma contemplação nirvana do en- torno, do Umwelt, em que a apreciação estética se perde entre os sentimentos e as nuances das mais variadas cores que se enxerga, riso no canto da boca, sorve- te sabor goiaba, delicadezas. Porém, o céu de Barthes é mos- trado em degradê, que se apaga, se finda, bem diferente de um céu rosa alaranjado fim de tarde, em que o céu encontra a terra. Esse encontro e seu momento talvez quem entenda melhor são a língua-cultura-povo Mbya-Guarani. Ali, isso (o encontro do céu e da terra) é hyvé, que também é verde, também é azul. Como ficam as outras cores (e coisas) quando se entende hyvé?

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