28 URBE | # 02/04 | CORES URBANAS Sidnei Schneider O poeta e artista plástico Pedro Geraldo Escosteguy, membro do nacionalmen- te conceituado Grupo Quixote (1947 a 1961), pretendeu jogar poemas do alto de um avião sobre toda a Porto Alegre, numa época em que folhetos de pro- paganda eram assim distribuídos, para alegria da criançada que corria atrás dos papéis de variadas cores e os juntava. Estimulado por essa disposição anterior, confesso que sonhei escrever poemas nas paredes cegas dos grandes edifícios, as que os argentinos chamam de media- neiras, no início dos anos 1990. A poeta e contista Laís Chaffe foi além: tendo vi- venciado a poesia como algo cotidiano e natural, em que uma reclamação bem- -humorada do pai podia ser um “apedre- ja essamão vil que te afaga/escarra nessa Cidade Poema: você de frente com o verso boca que te beija”, os conhecidos Versos Íntimos de Augusto dos Anjos 1 , nunca entendeu o porquê de deixá-la recolhida apenas à vida literária. Realizou, como se verá, o que outros, iguais a nós, apenas imaginaram, através do movimento de divulgação de poesia Cidade Poema. Na rua há três anos, o projeto vem espalhando poesia na capital gaú- cha através de outdoors, affixes na tra- seira dos ônibus, minimetragens, decal- ques gigantes, bolachas de chope, imãs de geladeira, encontros públicos, cami- setas, performances teatrais, edição de livros e outros suportes. Contabiliza a participação de mais de 70 poetas e ar- tistas ilustradores, designers, fotógrafos, equipe de filmagem, músicos, gente de teatro, produtores, etc. Um pouco antes do primeiro lançamento, quando Laís solicitou ao poeta e psiquiatra Celso Gutfreind um poema para veicular em outdoors co- loridos e artisticamente ilustrados, este imaginou que se tratava de puro delírio, conforme entre risos admitiria depois. Em abril de 2009, no entanto, umpoema seu, comilustraçãodeGuilhermeMoojen e arte final de Orlando Bona Filho, estava colado em 25 pontos da cidade. REENCONTRO AO LONGO Esse preceito está de pé: Todo ex-amor é um Deus ainda Nós é que perdemos a fé Celso Gutfreind 2 Emoutra iniciativa, durante todo aquele abril, 30 linhas de ônibus circu- laram pela capital exibindo busdoors (adesivos grandes sobre a parte de trás dos ônibus), com fotografias a co- res de Fernanda Davoglio e poemas de nove autores. NECESSIDADE Preciso de outras mãos pra desatar meus nós. Preciso teus dedos. Preciso de nós. Laís Chaffe Foto: Fernanda Bigio Davoglio

RkJQdWJsaXNoZXIy NjI4Mzk=