34 URBE | # 02/04 | CORES URBANAS Teatro de rua: a arte de inventar novas cores no espaço urbano Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz Qual é a natureza específica do teatro de rua? Qual a sua singularidade? De que forma ele se apropria do espaço público urbano? Segundo Patrice Pavis, em seu Dicionário de Teatro , o teatro de rua é “o teatro que se produz em locais exteriores às construções tradicionais: rua, praça, mercado, metrô, universida- de, etc. A vontade de deixar o cinturão teatral corresponde a um desejo de ir ao encontro de um público que ge- ralmente não vai ao espetáculo, de ter uma ação sociopolítica direta, de aliar animação cultural e manifestação so- cial, de se inserir na cidade entre provo- cação e convívio”. Uma das especificidades que o teatro de rua apresenta com relação às artes cênicas em geral é a ruptura radical com a barreira imaginária que demarca o palco e a plateia, separando atores e espectadores. Ele convida à participação todos os passantes, propõe interação e diálogo, incita à intervenção. Com o te- atro de rua, o lugar cênico estilhaça-se, liberta-se, torna-se móvel, aventura-se num percurso traçado nas artérias da vida citadina. Ressurge o cortejo, a ma- nifestação, a parada, a festa carnava- lesca, o manequim, a máscara, a com- media dell’arte. Uma vez eliminados os assentos fixos e a divisão rígida do es- paço, novas relações entre o público e o espetáculo começam a desenhar-se. Antes de mais nada, o teatro vai surpre- ender um público novo, com grandes probabilidades de atingir aquele que nunca vai ao teatro. Entretanto, a mobi- lidade da área de representação implica mobilidade do público. A representa- ção pode envolver os espectadores, ser rodeada por eles, dilatar-se, contrair-se, parar ou avançar; desloca-se livremente através do espaço: a ação respira. Mas não é apenas a ausência des- sa linha de demarcação que caracteriza o teatro de rua, ele se relaciona com as cir- cunstâncias concretas que afetam o dia a dia dos cidadãos. Ao expor e denunciar os mecanismos de dominação e explo- ração, ele convida os espectadores ao exercício da cidadania, a pensar e viver alternativas mais livres e justas de socia- bilidade. Fazer teatro de rua não significa apenas apresentar ao ar livre os espetá- culos realizados em locais que chama- mos de teatro, sejam salas convencio- nais ou espaços alternativos. Fazer teatro de rua é uma escolha que vê a rua como o lugar natural e desejável de atuação artística. O espaço urbano, de amplo e intenso acesso, permite romper com as barreiras e constrangimentos – muitas vezes elitistas e classistas – decorrentes da arte feita em espaços tradicionais, convencionais. É um projeto estético e interventivo que atua diretamente no dia a dia da cidade. A rua é um lugar onde não se es- taciona, é o lugar onde se circula, por onde o cotidiano escorre sem paragem. E aí é que o teatro de rua vai buscar a sua especificidade. A eleição da rua como lugar cênico implica a fusão da arte com a vida, a infiltração do teatro no cotidiano, e, ainda, a mobilidade, o movimento constante ou fugaz, a ne- cessidade de surpreender um público anônimo, atarefado e movediço. Estas são as condições determinantes que

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