36 URBE | # 02/04 | CORES URBANAS Tribo de Atuadores Ói Nóis Aqui Traveiz fazem da rua, como lugar cênico, a ma- triz de uma forma nova de teatro: forma nova, e recente, como recentes são as ruas citadinas, com esfuziantes auto- móveis e de multidões apressadas. A rua também é um lugar plu- ral e fazer teatro de rua é apropriar-se desta pluralidade, acentuando o caráter público deste espaço diferenciado es- colhido para representar. Como nos diz Judith Malina do Living Theatre: A rua é um grande equipamento místi- co. Pertence a toda a gente, não perten- ce a ninguém. A rua é um caminho de passagem de um lugar para outro onde as pessoas não querem parar. A rua tem as suas próprias leis. Cada rua é diferen- te de qualquer uma outra rua tal como uma pessoa é diferente de uma outra pessoa. Cada rua tem a sua própria ambiência política e espiritual. Quando nós vimos trazer uma ideia para a rua nós vimos dizer ‘Nós estamos a invadir agora o vosso território porque nós que- remos dar-vos conta da possibilidade de paz, de não ter um governo tirânico, de encontrar outros caminhos para orga- nizar as nossas vidas, de nos livrarmos de alguns sérios abusos. Nós queremos trazer-vos esta mensagem’. O teatro de rua pode adquirir uma dimensão de imprevisto e de liga- ção com dinâmicas sociais que trans- cendem qualquer lógica dramatúrgica O teatro de rua não se limita a tratar o espaço público como um mero receptáculo ou cenário descartável, mas, sim, pretende estabelecer com a espacialidade urbana uma relação mar- cante e íntima através da qual o espaço se possa reconfigurar ganhando novos significados e permitindo que estes se conheçam pela transformação dos seus próprios significantes materiais (pare- des, sedes institucionais, construções). A representação teatral inclui a própria paisagem urbana, realizando uma apro- priação teatral da silhueta da cidade e criando infinitas possibilidades expres- sivas que dialogam com a própria cul- tura da cidade. O lugar cênico do teatro de rua é o espaço urbano resignificado. Os espaços do cotidiano ganham novos feita antecipadamente. Na rua, a per- formance teatral está constantemente exposta ao risco. Os atores não estão protegidos por paredes e cortinas, es- tão sob o olhar constante de qualquer transeunte. As regras confortáveis que regulam as relações entre atores e pú- blico de um teatro em espaço fechado desaparecem, o pacto ficcional se torna frágil, dando lugar ao imprevisto. No en- tanto, a contiguidade com o cotidiano revelada pelo teatro de rua pode ir para além dos marcos espaciais e temporais. Como nos diz Judith Malina, a estética dessa atividade artística está baseada em tentar compreender a linguagem das pessoas nessa rua. Precisamos criar peças que possam falar em muitos ní- veis a muitas pessoas. Com o teatro de rua, o lugar cênico estilhaça-se, liberta-se, torna-se móvel, aventura-se num percurso traçado nas artérias da vida citadina

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