40 URBE | # 02/04 | CORES URBANAS SATOLEP: FUTURO SOMBRIO E PERÍODO LUMINOSO (BARBÁRIE E ARQUITETURA) Seguem minhas visões de Satolep em ruínas. Hoje foi nossa casa que eu vi: telhado e muro desabados; a face norte destruída, sala, copa e cozinha entre- gues à ventania; a porta de entrada caí- da sob plantas tortuosas, entre os tijolos expostos da fachada. Inscrições a tinta, que não pude ler, sujavam as janelas apodrecidas. Não restavam marcas da nossa família (Ramil, Vitor. Satolep). 1 A destruição de Satolep estaria so- mente ligada ao tempo, que tudo con- some 2 , ou seria uma destruição ativa re- alizada pela barbárie humana? Ao fazer o protagonista de seu livro retornar do “calor abrasador do norte brasileiro” para as “estações do sul”, Vitor Ramil coloca em andamento não somente sua con- cepção da estética do frio 3 e uma trama permeada pela simultaneidade do tem- po, mas também está preocupado em pensar um lugar específico, o milagre de um espaço urbano que surgiu quase ao acaso – e cuja arquitetura talvez expres- se o nível mais alto de civilização que ali poderia ser atingido. É por esta razão que o protagonista do livro ouve a seguinte afirmação, que é dita por um estrangeiro que está de passagem pela cidade que admira: “A rigor, é inconcebível um lugar como esse ter surgido nesta região abar- barada. É uma espécie de licença poéti- ca da história. Algo intrigante. Não creio que possa durar”. O protagonista de Satolep re- tornou para sua terra natal aos trinta anos. Após conhecer o estrangeiro que desembarcara com ele na estação de trem da cidade, ele também fará ami- zade com o escritor João Simões Lopes Neto, que logo em seguida morrerá, e, mais tarde, com o poeta Lobo da Cos- ta. O tempo, aqui, é embaralhado, pois, do ponto de vista biográfico, Lobo da Costa morreu em 1888, enquanto Si- mões Lopes faleceu em 1916. No en- tanto, não há nenhuma contradição, sobretudo se levarmos em conta já a epígrafe do livro, retirada de Santo Agostinho: “Dispersei-me no tempo, cuja ordem ignoro”. Por outro lado, o contato com Lobo da Costa e com Simões Lopes Neto deixa supor que o protagonista circula por uma Satolep situada entre a antepenúltima década do século XIX e segunda do XX. Período no qual toda a beleza arquitetônica da cidade ainda não tinha começado a ser des- truída – os prédios ainda estavam to- Luz e sombra no território da estética do frio Luís Rubira Foto: José Roberto Zanetti Pelotas – 2011
RkJQdWJsaXNoZXIy NjI4Mzk=