41 URBE | # 02/04 | CORES URBANAS dos ali, tal como mostram as fotogra- fias da Pelotas de 1922 (cidade que, aliás, havia completado dez anos an- tes o centenário de seu surgimento). Ao encontrar novamente o es- trangeiro (para quem “cada casa de Satolep é um chamado”), o protago- nista irá novamente travar um diálogo com ele, e ouvirá uma descrição por- menorizada sobre a feitura de ladrilhos hidráulicos e suas cores , que contri- buem para o “detalhismo sofisticado da arquitetura de Satolep”: A cidade é revestida de ladrilhos hidráu- licos, especialmente o interior das casas. O senhor já acompanhou o processo de feitura artesanal dessas peças, com as quais montam-se mosaicos fabulosos? As tintas são derramadas em moldes sobre uma superfície metálica untada. Quando omolde é retirado, o desenho do mosaico aparece imperfeito, como que prestes a se desfazer. Porém, na mistura de cimento e areia que é então colocada e prensada sobre ele, a face do ladrilho surge perfeita, como mágica, com flores azuis, triângulos alaranjados ou fitas es- piraladas de contornos definidos. A natu- reza que acabamos de percorrer de trem são as tintas indóceis na chapa oleosa; Satolep é amagia (Ramil, Vitor. Satolep). No entanto, a Satolep mágica, este espaço urbano no qual houve uma “licença poética da história”, lugar onde surgem as tonalidades coloridas dos ladrilhos, os tons de cinza dos paralele- pípedos e casas de cimento penteado, o branco que se faz ver nos mármores das mesas e no leite das garrafas, é tam- bém aquela cidade que será antevista num futuro não determinado com “ins- crições à tinta [que] sujavam as janelas apodrecidas”. Se no período luminoso do passado arquitetônico de Satolep as tintas eram manuseadas pelas mãos hábeis de artistas e artesãos, no futuro sombrio ela é aplicada pelos sprays de vândalos que bem pouco entendem da arte das cores. Arte, aliás, que Vitor Ra- mil conhece bem e que sempre esteve presente em sua obra. AS CORES, A PINTURA E OS PINTORES NA OBRA DE VITOR RAMIL A percepção das cores e a influência da pintura e dos pintores atravessam a obra de Vitor Ramil. Já em seu primei- ro disco, na canção Sim e Fim , ele dei- xava claro: “Canto o que quiser/ Lilás, marinho, vinho/ Cinza, rosa-choque / Sei tudo o que existe emmim/ Sei bem notas 1 A presente citação e todas as demais que surgirem sem indicação de fonte e página pertencem a obra Satolep, de Vitor Ramil, editada pela Cosac Naify, em 2008. 2 Na Grécia antiga, Píndaro escreveu que o tempo “é o pai de todas as coisas” (PÍNDARO. Olympique. Paris: Les Belles Lettres, 1999, II, p. 17-19.). Do mesmo modo, os gregos antigos passaram a compreender Kronos, o deus, não mais como um ser mitológico, mas como Khronos, o tempo, aquele que gera e destrói seus filhos. (Cf. SOREL, R. Les cosmogonies grecques. Paris: Presses Universitaires de France, 1994, p. 83). 3 A concepção estética de Vitor Ramil foi apresentada inicialmente no livro Nós, os gaúchos, organizado por Luís Augusto Fischer (Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1992). Aprofundando suas reflexões, Vitor Ramil publicou-a mais tarde no livro A estética do frio: conferência de Genebra (Porto Alegre: Satolep, 2004). A primeira obra literária de Vitor Ramil já foi construída com base na concepção estética do autor. Sobre a relação existente entre a estética do frio e Pequod ver: PEREIRA, Beatriz Helena da Rosa. “Isso tudo é apenas o que meu olho inventa”: (um estudo sobre Pequod, de Vitor Ramil). Porto Alegre: Dissertação de Mestrado/UFRGS, 2001. Foto: Luís Rubira Ladrilho hidráulico de uma residência em Pelotas – 2011
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