42 URBE | # 02/04 | CORES URBANAS o que me convém” ( Estrela, Estrela ). Se a capa do primeiro disco era em preto e branco , no segundo surgem as cores estampadas na porta de um vagão de trem (não é ao acaso, por- tanto, que a última faixa deste disco será intitulada “As cores viajam na porta do trem”). Já a relação com os pintores também surge em outras faixas de A paixão de V Segundo ele próprio , tal como na canção-título do disco: “Eu poetizado/ Me descubro em tudo/ Da cor de Kandinsk / Aos punhais de Bor- ges”. E novamente na terceira estrofe da canção Satolep : “Chuva, vapor, ve- locidade/ É como o quadro de Tur- ner / Na parede gris da solidão”. Aliás, a expressão “ Chuva, vapor, velocida- de ”, é justamente o título dado pelo pintor inglês Willian Turner ao seu quadro datado de 1844. Na obra seguinte, Tango (1987), a pintura é a matéria que compõe a capa do disco: ali surge pintado o ros- to de Vitor Ramil. Pintura realizada por um dos mestres do gênero no Brasil: Carlos Scliar 4 . A relação com os pin- tores pode também ser percebida no primeiro livro do artista: Pequod . Nele, o decorrer da trama tem ligações com o pintor italiano Paolo Uccello , e, no que tange a percepção das cores no espaço urbano, ela é sentida em trechos como: Calle Asencio. Todo o movimento e toda a cor de Montevideo. Descoberto oUruguai, eu jamais esquece- ria as grades e sombras do Hotel Florida. Hotel Florida. Toda a quietude; todo o negro, todo o dourado, todo o cinza; to- das as grades e sombras de Montevideo 5 . Se no livro Pequod surgia um pintor do final da idade média (que já privilegiava, naquela época, o uso das cores), no disco A Beça , lançado no mesmo ano (1995), surge um mes- tre surrealista na canção A invenção do olho : “Desejei de Homero a escuri- dão/ Mas nas trevas me perdi/ Fui en- tão ao sol e o sol me fez/ Um relógio de Dali ”. Dois anos depois, virá a obra Ramilonga – A estética do frio . Nela está a letra-título do disco, compos- ta anos antes, que remete a uma cor entranhada no imaginário gaúcho: “Chove na tarde fria de Porto Alegre/ Trago sozinho o verde do chimar- rão ”. E também na mesma canção aparece outra cor, impregnada na memória dos habitantes da capital: “Ruas molhadas, ruas da flor lilás ”. Mas é numa das faixas da obra seguinte, Tambong (2000), que as percepções do compositor aliam-se à própria pintura, tal como se pode ou- vir na canção Grama verde : “ Pintei de verde a grama em dia claro/ De verde forte e falso e vivo e raro/ Que seja a grama brutal/ Se eu quero a cena ideal./ Na luz do dia não passei a tinta / Que luz tão clara só com sol se pinta/ Que seja o dia real/ Se eu quero a cena ideal”. Luís Rubira a cidade cujo luminoso período arquitetônico vai cedendo lugar às sombras da barbárie

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