44 URBE | # 02/04 | CORES URBANAS Luís Rubira PELOTAS: PERÍODO LUMINOSO E FUTURO SOMBRIO (ARQUITETURA E BARBÁRIE) Satolep, anagrama de Pelotas, é a cida- de que idealizei a partir da Pelotas que conheci na infância. Na casa de uma tia minha, havia umas aquarelas na parede cujo motivo era Paris. Nunca esqueci de uma (ou minha memória me faz acredi- tar nisso) que mostrava a velha cidade ao anoitecer, sob a chuva, os carros com os faróis ligados, amarelo sobre cinza, as pessoas de guarda-chuva. Aquilo para mim era Satolep. 8 Em Satolep , o estrangeiro é taxati- vo: “O frio geometriza as coisas”. Trata-se de uma fórmula madura, que bem pode sugerir, em termos de espaço, quais são as cidades que pertencem ao território abarcado pela estética do frio. Afinal, tanto em seu ensaio de 1992 quanto em seu livro de 2004, Vitor Ramil parte da contraposição entre calor e frio para daí compreender um tipo humano (o gaúcho/el gaucho), que é habitante de um determinado território (o pampa – o qual não tinha, no passado, as atuais fronteiras entre Brasil, Argentina e Uru- guai), tipo este que conhece os rigores do inverno e para quem a uma sonori- dade específica é familiar (a milonga). Pelotas, que, do ponto de vista latitudinal, pertence ao pampa, estaria no território delimitado pela estética do frio. Projetada e construída fundamen- talmente no século XIX, as ruas e pré- dios de seu espaço urbano certamente obedeceram ao princípio arquitetônico do “Non alcior solis tolendus” (“Não me tolhas o sol”), utilizado na Roma antiga. Princípio que garantia a luminosidade em todas as residências 9 , não somente para que o sol e o calor se fizessem pre- sentes, mas também para privilegiar a percepção das cores, as diferentes tona- lidades do dia, o contraste dos vitrais e vidros decorados projetados em forros altos e paredes de grossa espessura. Mas se por um lado, a luminosi- dade do sol e a escuridão da noite, so- Foto: Nauro Junior Pelotas – 2011
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