8 URBE | # 02/04 | CORES URBANAS finido. Por essas bases de construção, para Juremir Machado (2004, p. 34), o gaúcho herdou “o hábito da relação antropológica fundamental dentro/fora”, sendo que “Porto Alegre é uma cidade unida por uma só paixão: a da oposição. Polarização entre dois termos irreconciliá- veis, porém incapazes de viver um sem o outro. Oporto-alegrense altruísta e hospi- taleiro alimenta-se de rivalidade”. Segundo Macerata (2010), depois que as culturas do Prata deixaram de ser importantes, depois que a capital virou as costas para o pampa, depois que a fronteira com territórios hispânicos dei- xaram de ser questão, o gaúcho conti- nuou a atualizar a oposição dentro/fora, gerando um fosso, uma trincheira onde houver possibilidade de produzir dis- tinções: Metade Norte/Metade Sul do Rio Grande do Sul, porto-alegrenses/ gaudérios, brasileiros/castelhanos, bra- sileiros/gaúchos, farroupilhas/imperiais, chimangos/maragatos, federalistas/re- publicanos, gremistas/colorados, ver- melho/azul, petistas/antipetistas, mi- nha turma/não minha turma. Essa marca, que vem sendo atualizada ao longo dos anos, ou seja, vem sendo exercitada frente a diferentes oportunidades. É uma evi- dência potente para o que estamos tratando sobre a percepção e qualifi- cação das cores do dia a dia da cidade. O comportamento repetido de polari- zar as relações acaba sempre classifi- cando os objetos como “pertence” ou “não pertence”. Essa atitude pode ser uma forma um tanto quanto limitada de atuar em sociedade. OS EFEITOS DO PADRÃO DETERMINISTA DO OLHAR Então podemos arriscar uma hipótese: a certeza do porto-alegrense, mani- festada na atitude de polarização, em conhecer as cores da sua cidade faz com que ele não perceba a diferença que se cria nela a partir da mistura . É o excesso de confiança na identifi- cação das cores que o torna daltônico. É como se a absoluta naturalidade em ver a maçã vermelha impossibilitasse reconhecê-la também verde. Essa atitu- de faz o cidadão acreditar poder prever as cores que encontrará pelo futuro. Quantas vezes você mesmo não falou, ou ouviu alguém afirmar, que um deter- minado local não é “bacana” porque só tem gente de um tipo x : “Nesse bar só vai ter artista”, “Esse bairro é de playboy ”, Daniel MÜller Caminha É o excesso de confiança na identificação das cores que o torna daltônico
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