educaSesc#4
Escola é presença e nada substitui a aprendizagem presencial. Omaior desafio é garantir que seus filhos sigamdando valor para a escola e encantados pelo conhecimento. AO MESMO TEMPO, MUITOS ALUNOS SE VIRAM INSERIDOS NESTE CENÁRIO TOTALMENTE DIGITAL. A EXPERIÊNCIA NO MUNDO (PLANTAR UMA HORTA, INTERAGIR NA VIZINHANÇA, FAZER PASSEIOS DE APRENDIZADO) FICOU EM SEGUNDO PLANO. TEREMOS UMA MUDANÇA DE PARADIGMA E O ENSINO SERÁ CADA VEZ MAIS TECNOLÓGICO? OU, PELO CONTRÁRIO, VALORIZAREMOS MAIS O LÚDICO E O EXPERIENCIAL NO APRENDIZADO DEPOIS DA PANDEMIA? Outra pergunta que ninguém seria capaz de responder. Não somos capazes de fazer previsões sobre o futuro neste momento porque estamos vivendo tempos inéditos. Por outro lado, nunca vai haver uma mudança igual para todos. São diferentes contextos, diferentes realidades. Eu posso dizer que eu gostaria que depois de passar por esta experiência que a pandemia do novo coronavirus nos colocou, que a escola aprendesse a ser menos enciclopédica, que se preocupasse menos com os resultados e focasse no valor do conhecimento que serve para entender o mundo e não apenas para passar de ano. Gostaria que a escola fosse bimodal, com aulas presenciais e atividades digitais, tudo acontecendo na escola. Gostaria que os alunos tivessem voz e que os professores fossem mais respeitados socialmente. Gostaria que a educação fosse holística, que desenvolvesse cada alunos em todas as suas potencialidades. Porém temo que a únicas mudanças que aconteçam seja o dispenser de álcool em gel e a redução no número de carteiras na mesma sala de aula. A DIFERENÇA ENTRE OS ENSINOS PRIVADO E PÚBLICO FICOU MAIS ACENTUADA DESDE A PANDEMIA. COMO REDUZIR A DESIGUALDADE NA EDUCAÇÃO? A pandemia sem dúvida acentuou as desigualdades educativas como consequência das desigualdades sociais. Enquanto a rede privada de ensino começou imediatamente com aulas remotas, a rede pública teve que resolver muitos outros problemas emergenciais, como garantir alimentação para os alunos que só tinham a escola como lugar para se alimentar. Também ficou claro que esta desigualdade que está deixando milhões de estudantes sem qualquer contato escolar, não afeta a sociedade. No Brasil, infelizmente educação é problema da escola. Mas na verdade, educação é responsabilidade de todas as cidades, que deveriam se mobilizar para não deixar nenhuma criança ou jovem sem acesso à escolarização. Isso é direito garantido pela Constituição Brasileira e que não está sendo cumprido. QUAL O SEU CONSELHO PARA OS PAIS QUE SEGUEM EM CASA COM OS FILHOS, PRECISANDO TRABALHAR E GERENCIAR AULAS E TEMAS. MUITOS ESTÃO SOBRECARREGADOS E ANSIOSOS E, ATÉ MESMO, TENDO DIFICULDADES NA RELAÇÃO COM AS CRIANÇAS. O QUE DEVE VALER NESTE MOMENTO? O ENSINO A TODO O CUSTO OU A SINTONIA DA FAMÍLIA? Eu diria para terem calma e lutarem pela defesa da escola. Respeitar este momento de exaustão que estamos vivendo e não enxergarem seus filhos como um número ou um resultado. Gostaria que entendessem que ano vivido não pode ser ano perdido. Não podem exigir que vivam a escola em casa como se nada estivessem acontecendo. Escola é presença e nada substitui a aprendizagem presencial. O maior desafio é garantir que seus filhos sigam dando valor para a escola e encantados pelo conhecimento. Os pais têm como desafio não tentar ser professor, mas precisam apoiar a escola. Precisam aprender a conviver em família com muita generosidade e aproveitar para conhecer melhor seus filhos e aprender com eles. Estamos tendo a oportunidade de aprofundar laços afetivos e não podemos ficar neuróticos buscando uma vida que hoje não temos mais. MATEMÁTICA, BIOLOGIA E HISTÓRIA SÃO MATÉRIAS IMPORTANTES. MAS COMO A SENHORA REFLETE SOBRE A NECESSIDADE DE INCLUIR TAMBÉM TEMAS COMO EMPATIA E TOLERÂNCIA NAS SALAS DE AULAS? Na Base Nacional Comum Curricular BNCC, na sua parte introdutória, apresenta dez competências gerais para a educação brasileira. Nesta lista, seis referem-se às habilidades socioemocionais. Também existem muitos programas e projetos que trabalham com estes aspectos que são fundamentais. Mas entre o que está nos documentos normativos e a vida real da escola, tem uma distância. É preciso trabalhar esses aspectos não somente com os alunos, mas cuidar dos professores nos mesmos temas. Valorizar estes temas exige ainda uma escola mais integrada à vida, mais humana que entenda a educação é processo. Temos um grande desafio neste sentido. COMO A SENHORA IMAGINA QUE SERÁ O ENSINO NO FUTURO? Não imagino, mas desejo. Gostaria que no Brasil a educação não fosse apenas um discurso político. Educação para mim é a luta por justiça social. Sem isso não haverá direito de aprendizagem para todos, em igualdade de condições. Sem lutar pela educação de qualidade para todos, não haverá futuro para o Brasil. 5 EDUCA SESC 2020 LOURDES ATIÉ é socióloga e educadora. Atualmente é Diretora de Formação da organização Doutores da Alegria. Também desenvolve diversos projetos voltados para formação de professores e de gestores, nas redes públicas e privadas de ensino. Fez parte da Comissão Editorial da Revista Pedagógica Pátio, que hoje está na plataforma Desafios da Educação, da qual é colaboradora. Tem diversos artigos publicados em diferentes veículos e autora de materiais de formação pedagógica.
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