176 isso anteriormente. Meus lapsos de memória se somam ao desejo de deixar minhas percepções nomundo e agora deixo aqui o escri- to para encerrar: No que diz respeito às fantásticas leis da natureza, podemos ver a morte como sua obra-prima, para uma sensação mais aguçada; como sua melodia mais expressiva desenvolvida, para uma lógica não condicionada. Soa um tanto lúgubre essa vibração suspensa em uma atmosfera eternamente jovem, com seus infinitos mis- térios a serem traçados. Porém, na referência ao amor – criação humana abrangente dos sentimentos mais agudos – existe uma percepção de efemeridade, sendo nós, passageiros de velhas lem- branças, buscando algo novo e denominando tudo e todos, para comunicação, mas também na tentativa incansável de jamais apa- gar o passado individual e o passado todo. Nada como ver a morte através do vidro, com sua expressão séria, com seu olhar oceano, mas perceber que ela só lhe será apresentada em um futuro incer- to; nada como tocá-la, com a ponta dos dedos, para reavivar cada célula adormecida. Instigante é o desfrute da beleza da paisagem, nostalgia do aroma, viagem da íris, emoção sonora, melancolia da chuva, harmonia de cores, dança celeste, segredo da flor... Mas sa- ber todos esses estímulos sendo findáveis, sujeitos a renovações constantes. Curioso são as recordações parecerem mais intensas que o próprio momento. Interessante é captar a força de um ins- tante, sabendo ser instante forte por anteceder a morte. Liberdade é ter a convicção – ao menos uma vez – de que valeu a pena, “que a alma não é pequena”, que autonomia de pensamento envenena e que não existe possibilidade de se perder enjaulado em eterna solidão. Morte é a grande ditadora e a mais democrática. Ela não permite carregar bens materiais, mas dá a todos a necessidade das lembranças. Ela faz todos a temerem, mas, mesmo inconsciente- mente, é unânime na opinião social. Ela cria personalidades am- bíguas e no final unifica qualquer existência. Ela obriga todos a morrer, mas dá a todos demasiada gana de viver. A morte é busca de sentidos e criadora de dúvidas incessantes. A morte é amor pla- tônico e é relacionamento afetivo. É vida e é morte. Março de 2023

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