068 Pela manhã, quando acordei, comi uns sanduíches, tomei água. Em seguida, me dei conta que haviam alguns assentos liberados. Fui para um com dois lugares livres, sentei na janela, levantei o pé, comecei a ler meu livro. Passou algumas horas, o russo veio se acomodar ao meu lado. Era um senhor mais velho, estava via- jando sozinho. Tinha outros espaços livres, mas percebi a inten- ção dele em fazer novas amizades. Fez algum comentário, come- çamos a conversar. Ele tinha um inglês bem brusco e no meio das frases colocava umas palavras perdidas em russo. Não entendia tudo, mas conseguia me comunicar. Mostrou-me suas fotos de família, falou um pouco da sua história, contou dos lugares onde havia visitado. Disse ter perdido a mulher, estava aposentado e com filhos já adultos, tinha optado por viajar. Achei interessan- te a sua iniciativa, estendendo o assunto com ele. No começo foi interessante, mas depois de um tempo só queria relaxar, deitar, ficar no meu canto. Ele estava meio carente, falando sem parar. Não quis ser antipático ou cortá-lo. Entendia que deveria ser um momento solitário. Estava precisando de atenção. Seguimos fa- lando até a próxima parada, onde desci. Por sorte, na volta, ele já havia encontrado outro amigo para conversar. Assim sendo, consegui achar novamente dois lugares vazios para me acomo- dar e descansar. Antes de dormir fiquei olhando através do vidro aquelas rodovias poeirentas, onde vez que outra, aparecia um campesino, uma casa de adobe ou um bar melancólico de beira de estrada. É enigmati- camente indescritível esse sentimento que passa pela gente quan- do estamos percorrendo longas distâncias por terra. Parece que acessamos sentimentos de existências passadas. Fiquei ali na ja- nela como observador daquela vida ocorrida indiferente a minha presença, vendo tudo passar de forma ligeira – completamente o oposto do ritmo lento e pacato que as coisas acontecem nesses confins de mundo. Lugares remotos sempre têm outra noção de relação com a passagem do tempo, diferente da frenética agitação das grandes metrópoles. Em seguida, cai no sono.

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