Revista Palavra 11

palavra. sesc. literatura em revista. 2022. Tom Farias é carioca, formado em Letras, com especialização em Literatura Brasileira, e Comunicação Social. Como jornalis- ta, atuou em diversos jornais do país. É escritor, crítico literário, ensaísta, dramaturgo e roteirista. Tem quinze livros publicados, entre biografias, romances e ensaios literários, com destaque para os premiados Cruz e Sousa: Dante Negro do Brasil (Pallas Editora), finalista do prêmio Jabuti 2009, e José do Patrocínio: a pena da abolição (Editora Kapulana, 2ª edição). Atualmente escreve para o jornal O Globo, é colunista da Folha de S. Paulo e colaborador da revista QuatroCincoUm. Coordena o Centro de Estudos em História e Literatura Afro-Brasileira , da Universidade Zumbi dos Palmares (SP) e é professor convidado do curso de Pós-Graduação em Relações Étnico-Raciais da Universidade Cândido Mendes (2020-2021). É Embaixador do Instituto Adus de Apoio aos Refugiados no Brasil. É membro da Academia Ca- rioca de Letras. Tom Farias página 023 © Arquivo Pessoal Em fevereiro de 1940, publica longo poema no jor- nal Folha da Manhã , no corpo de entrevista dada ao jornal. Esta entrevista é o primeiro indício de Carolina como escritora, sob o manifesto desejo de escrever poesias, letras de música e tornar-se conhecida. A origem dessa entrevista vai nos le- var para a Carolina da favela do Canindé, quando, entre 1958 e 1960, ela conhece Audálio Dantas, e publica o livro Quarto de despejo . Carolina simboliza resiliência da mulher no saber de populações pretas e pobres no Brasil. Em Sa- cramento, foi matriculada no Colégio Allan Kar- dec, aos 7 anos, onde estudou até os nove. Sua pro- fessora, Lonita Salvina, que era negra, a incentiva a estudar e ler. Essa escola exerce forte influência na menina Bitita, apelido de Carolina na infância, dando-lhe força para seguir em frente e sobrevi- ver. A escola, sobretudo a pública, é retrato da so- ciedade ao seu redor, espaço da democracia, onde converse o ponto de riqueza entre os diferentes, os desiguais, no sentido ético e comportamental. A escola – só ela – vai poder levar alguém para o pleno exercício da cidadania. Carolina, com sua escrita própria, tem sua sinta- xe que a define e realça. Mãe solo de três filhos, negra, oriunda de família, segundo ela, “soldo da escravidão”, referindo-se a isso à figura de Be- nedicto José da Silva, seu avô, “o Sócrates Afri- cano”. Atémorrer, em 1977, aos 62 anos, Carolina luta para manter-se no mundo das letras, da escrita, do pro- tagonismo conquistado no início de 1960. Seu lega- do a coloca no pioneirismo de escritora negra, de camadas populares, de favelas, de periferias, des- tacando-a no mundo pleno da literatura. Não à toa foi cognominada “Jorge Amado do povo”, “Machado de Assis de saia” e “Shakespea- re da cor”, no juízo da época. Viva Carolina!

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