LUÍS RUBIRA Vitor Ramil – Nascer leva tempo Em dezembro do mesmo ano, o jovem urbano Vitor Ramil se apresentou num tradicional festival de música nativista do Rio Grande do Sul, a Califórnia da Canção. Realizada na cidade de Uruguaiana, próxima às fronteiras da Argenti- na e do Uruguai, a 10 a Califórnia teria sido, segundo a crítica, a mais marcante de todas as ocorridas até aquele momento, basicamente por dois fatores: primeiro, pelo alto nível dos convidados especiais (o festival contou com a presença do músico argentino Atahualpa Yupanqui e de Sivuca e Inezita Barroso); segundo, pela grande presença do público e pela cobertura da mídia, inclusive do centro do país. 29 Nesse Festival, Vitor cantou Semeadura (composta aos 17 anos em parceria com José Fogaça). Em termos musicais tratava-se da primeira milonga de Vitor, que, para compô-la, se inspirou em Mercedes Sosa, uma das grandes personalidades do meio musical sul-americano. Durante sua adolescência, ele tomou contato com toda uma vertente cultural e musical da América espanhola, tal como observou anos depois: Os meus irmãos Kleiton e Kledir eram muito ligados na coisa regional, logo começaram a pintar coisas latino-americanas na casa. E na minha infância, nos anos 70, época da ditadura, tinha muita música latina de esquerda e aquilo mexia muito com todo mundo. Foi quando conheci a Mercedes, quando compus mi- nha primeira milonga (...). Acho que o Rio Grande do Sul de certa forma é uma porta aberta para a Amé- rica de língua espanhola. 30 A letra da canção que Vitor Ramil apresentou na Califórnia tinha, sem dúvida, a influência das canções de protesto. No final dos anos 70 e início dos 80, num perí- odo em que as ditaduras militares ceifavam vidas movidas por um ódio à diferença e à liberdade de expressão, Semeadura vinha reforçar as ideias de resistência Nós vamos prosseguir, companheiro Medo não há 29 Conforme amplo texto de Juarez Fonseca: “A Calhandra de Ouro foi para Santa Maria: Veterano , Romance na Tafona e Semeadura são as três vencedoras da 10 a Califórnia da Canção”, Zero Hora , 16/12/1980. 30 “Um músico que não perde tempo, mas não tem pressa”, Balaio Cultural , 2000.

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