12 URBE | # 01/04 | CARTOGRAFIAS URBANAS Nossa cidade nunca se deixa “ A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite (...). É preciso voltar aos passos que foramdados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. ” José Saramago (1922-2010) flávio wild Em Bancoc, na Tailândia, um ôni- bus cruza a paisagem ruidosa exibin- do apenas os rostos dos passageiros. Alguns olham para fora, enquanto outros se escondem. Todos têm um trabalho, um amor, convivem com seu delírio e sua culpa. No entanto, durante a viagemden- tro da lata não são ninguém. Não pensam em nada. O tempo que dura o desloca- mento de um local para outro, ou o ins- tante do trânsito, é sempre um recorte de espírito. Cada anônimo que se exibe fu- gaz na janela possui um desejo. Quando desembarca, ele nunca mais será o mes- mo. Ao retornarmos de outro lugar, o real e o imaginário se confundem para criar reminiscências fictícias. Tal como os pas- sageiros no ônibus, o instante do trânsi- to ajuda a compreender os enigmas da realidade pessoal – aquilo que é raro ou inexiste emnós . No aeroporto Suvarnabhumi, após 22 horas de voo, minha memó- ria retém poucas lembranças de casa. A primeira noite na cidade é intolerável. O calor intenso e úmido. Uma confusão de ruídos que parece organizar os fluxos dissonantes. Tento compreender a vida veloz, o ritmo tailandês, que é quase in- decifrável. Puro exercício de descobrir. Aos poucos, sem querer rememorar, começo a encontrar Porto Alegre na paisagem exótica. Bancoc ergue-se no delta do rio Chao Phraya, que contorna o centro histórico, área portuária e edi- fícios de arquitetura variada. Entre eles, o Grand Palace, templo maior do culto budista. Cidade-dentro-de-uma-cidade, Usina de Energia Thai à beira d’água. Seu esplendor e exagero, seus suntu- osos salões revestidos com mosaicos dourados e reluzentes, as cúpulas em forma de agulha, criam uma fascinante combinação de estilos, que lembram as alegorias do Carnaval. No centro da ca- pela real, um altar comporta o famoso Buda de esmeralda. As pessoas tiram os calçados para ingressar nos espaços de culto, em uma confusão de atar e desa- tar cadarços. No entanto, Bancoc convi- ve com uma estranha moral. Sua sólida tradição contrasta com as ruas buliço- sas, mercados de odores e prazeres. O ouro, o jade e as onipresentes salas de massagem – os ensinamentos espi- rituais e o espetáculo de fantasia que
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