14 URBE | # 01/04 | CARTOGRAFIAS URBANAS se inaugura a cada cair de tarde. A Tai- lândia oferece um bazar de artigos divergentes porque é tolerante. Sua culturavisual aprimoraaviagemdossen- tidos para interpretar o que se esconde, o que é invisível em qualquer cidade. É domingo, embarco no futuris- ta Skytrain. Pela janela do vagão vejo as calçadas lotadas de pessoas, como se fosse dia de trabalho. Em torno da Siam Square, torres de vidro abrigam shoppings hightech , decorados pelo multicolorido das marcas. Entre eles, em qualquer praça ou remanso, há sempre um quiosque de culto com a imagem do Buda magro, e bastões de incenso, colares de flores, botões de lótus. Ape- sar da mistura étnica entre morado- res e visitantes, o território é de todos. Distância cultural e proximidade física se completam na ideia de vizinhança. A luz interna do vagão reflete nos vi- dros, ilumina imagens invertidas, telas publicitárias em movimento, como um circo de informação e gente, e não mais identifico o que é tela, o que é janela. Surgem agora outras cidades ao mes- mo tempo, numa roleta de formas, co- res e sons. Imagino a próxima estação em Porto Alegre – calor, umidade – o pôr do sol no Guaíba ilumina a estrutu- ra do inacabado aeromóvel, que bem poderia ser um Skytrain. Desembarco na estação do Mer- cado Chatuchak. Milhares de estandes e barracas naquela que é a maior feira da Tailândia. Há de tudo: antiguidades, bugigangas, roupas, plantas, comida, velas flutuantes, cabeleireiros de poo- dles e uma bizarra seção só com ani- mais, de esquilos a iguanas, importadas ilegalmente. O lugar trepida. Barulho e confusão convivem com um monge, que também passeia vestindo seu há- bito cor de laranja. Vendedores ambu- lantes tentam seduzir as pessoas com espetinhos de larvas e escorpiões fritos. Cheiros estranhos e ruins exalam sem ti- midez, ao longo desse mercado público a céu aberto. Uma senhora carrega uma pequena gaiola com um pássaro exóti- co, enquanto seu marido octogenário toca violino. Passo pela terceira vez pela mesma banca de frutas vermelhas e ca- beludas, o rambutan , e percebo que es- tou perdido. Mas perder-se é bom quan- do se está só. A liberdade de se perder é proporcional ao anonimato do flâneur . Cruzo por um estacionamento de tuk-tuks e embarco em um deles. O simpático motorista me conduz pelo trânsito confuso de Bancoc, e tenho a sensação de que voumorrer na próxima esquina, tão grave o destempero das suas manobras. Lumphini Park, solicito, mas ele planeja outro destino para mim, uma espécie de cota turística que deve cumprir para ganhar comissão. Então, estaciona em frente a uma joalheria. De nada adianta dizer que não me in- teresso em visitar o local. Quando per- cebo, já estou dentro da loja, fascinado pelas joias. Gasto seis mil baths em um belo anel de orange sapphire . O vende- dor comemora a compra me servindo uma garrafa de refrigerante com canu- dinho e finaliza: “ Sawasdee ”. O último refrigerante que lembro beber dessa A luz interna do vagão reflete nos vidros, ilumina imagens invertidas, telas publicitárias em movimento, como um circo de informação e gente, e não mais identifico o que é tela, o que é janela flávio wild

RkJQdWJsaXNoZXIy NjI4Mzk=