24 URBE | # 01/04 | CARTOGRAFIAS URBANAS grande incêndio ocorrido na época em que Nero era imperador (ano 64 a.C). A tragédia virou lembrança, e então ruí- na, depois deixou de ser memória para ser História, só recriada por meio de fa- tos e imaginação. Há um ponto em que a memória encontra a imaginação para então se fa- zerem mais verdadeiras à nossa percep- ção; assim como há o ponto em que a tragédia e o esquecimento sonham es- tar lado a lado para então virar História e não mais lembranças do horror. Munique tem seus prédios refei- tos e tão conservados como se tives- sem acabado de serem construídos. A conservação dispersa a atenção da memória. Tudo recebe um ar de fres- co, de novo. Entretanto, é exatamente aí que reside a austeridade da tragédia: na ausência do tempo feito em ruína, uma estranheza toma conta. A auste- ridade da reconstrução desperta uma memória da tragédia, daquela que não se pode esquecer jamais nem se quer lembrar todos os dias. No teto do terraço do museu Haus der Kunst , em Munique, há um ornamento geométrico em ladrilhos vermelhos onde percebemos uma suás- tica no centro do desenho. Ali, naquele prédio, que foi a primeira construção da arquitetura nazista 3 , os ornamentos geométricos lançam o fio de Ariadne da lembrança da História – da memória compartilhada e não vivida. A arquitetu- ra e os seus adornos guardam a História latente, necessária presença para não se esquecer o que passou. Na típica arquitetura de recons- trução do pós-guerra na Alemanha, os prédios estão renovados, mas a lem- brança é viva, recente. A austeridade da arquitetura da reconstrução relata essa história silenciosa, não apenas lembran- ças de guerra. São registros de persistên- cia e capacidade de renovação. Se em Munique a arquitetura da reconstrução guarda esses silêncios da memória coletiva recente, ali, diante das ruínas romanas, senti-me diante de marina camargo

RkJQdWJsaXNoZXIy NjI4Mzk=