38 URBE | # 01/04 | CARTOGRAFIAS URBANAS gabriela silva motoristas, certamente causaria inúme- ros acidentes. Custou muitas repinturas para os órgãos responsáveis, que anos depois se dedicaram a uma grande campanha publicitária para dar desta- que para as faixas de pedestres da cida- de. O Código só desapareceu após uma recapagem na pista e da pintura de uma nova faixa, apagando aquela que serviu de base para a intervenção 13 . O projeto Estante Pública , do es- túdio Nômade 14 , teve um outro tipo de aceitação do público e das instituições públicas. Iniciado em 2008, o projeto é baseado no conceito de transvenção, que pensa em um espaço de interven- ção útil à ação social, no caso da Estan- te , livros à disposição dos usuários de pontos de ônibus da cidade que po- dem tanto intercambiar obras como passar o seu tempo de espera com uma leitura. Da experiência saiu um excelen- te documentário (que pode ser visto no site do projeto). Infelizmente, nos pon- tos que passei nos últimos tempos os livros tinham sumido, mas a iniciativa, que já ganhou editais de fomento com dinheiro público, deve continuar. Des- ses grupos com ações que se preocu- pam em rever os espaços de circulação pública, o coletivo Laranjas 15 foi um dos mais enérgicos em intervenções nos es- paços públicos, mas é um dos casos de migração intelectual que comentei no início do texto. Já há muito tempo se dispersou de Petit Poa para outros luga- res do país e do mundo. Contudo, nos anos seguintes de sua criação, em 2002, o grupo foi intenso em suas ações pela cidade. Escolheu a tradicional sorveteria Jóia para a distribuição de 110 litros de suco de laranja, tapou buracos das ruas na cor que escolheram para representar suas ações e nominar o grupo e convi- dou as pessoas para ouvir músicas em uma praça da cidade. Deixa saudades coloridas. Já a cidade foi vista de outra for- ma pelo pessoal do Purê de Batatas 16 . Em suas Pequenas Ações Terroristas – o Abraço , a ideia não era interação com o público, mas a sugestão de uma quebra de sua rotina, de uma obra performática em meio à cidade que contrastava com a passagem física pelas ruas e calçadas. O Abraço era, no entanto, a parte públi- ca de um projeto maior, com exercícios, observadores especializados e pesqui- sa, que pela estática e pacificidade da ação (que consistia na performance de um longo abraço entre Heloísa Gravina e Dani Boff) desengonçava muitos dos passantes. Essa possibilidade pacífica não ocorreu, no entanto, para Telma Scherer emmeio à Feira do Livro, na sua performance Não Alimente o Escritor , atada por uma coleira a uma casinha de cachorro e com pilhas de contas a pagar, mostrava sua impossibilidade de inserção em um sistema que lhe ofere- cesse renda. Em meio ao grande fluxo de gente na Praça da Alfândega, a ação

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