6 URBE | # 03/04 | FOBIAS URBANAS Ao avesso/de dentro para fora: exorcismos urbanos Daniel MÜller Caminha Estamos em julho de 2012, o inverno em Porto Alegre neste ano realmente demorou para chegar. Apesar de fala- rem isso quase todos os anos, algumas vezes parece mais verdade do que ou- tras. Tá tudo rodando bem rápido. O tempo passa ligeiro ultimamente. Ve- mos a cidade com muitas construções, um clima de crescimento e novos ter- ritórios. São verdadeiros pequenos bairros sendo planejados por grandes incorporadoras e vendidos como a esperança de uma vida mais feliz, prá- tica e saudável. Qualidade de vida é a busca do momento. Por isso, o grande interesse em morar em um local con- trolado, arborizado, detalhadamente pensado. Tudo isso dos portões para dentro do condomínio, vigiado por cir- cuito interno de câmeras e protegido por cercas elétricas. Ao passo que as pessoas estão correndo para dentro desses ambien- tes fechados, muito estimuladas pelo discurso da segurança / praticidade / conforto, diversos ambientes urbanos vão ficando esquecidos e obscuros. São rastros do desplanejamento e do medo, que não permite pensar uma incorpora- ção harmônica do entorno, mas, sim, de um aproveitamento um tanto quanto egoísta das zonas ditas nobres. Impor- tante deixar claro que isso não é uma crítica às construtoras ou à prefeitura. É, sim, uma constatação de um comporta- mento social econômico, no qual esta- mos todos envolvidos. Afinal, toda essa realidade é consequência da maneira como organizamos a ocupação da cida- de, que segue um ímpeto de consumo exploratório voraz, superficial nas muitas possibilidades de contato visceral que a cidade pede. Nesse contexto, surge uma pro- dução forte de iniciativas que buscam apropriar-se da cidade, refazer seus mapas, deflagrar e ressignificar espa- ços públicos esquecidos. Destacaria al- gumas características comuns a todos esses projetos: eles se conectam por estarem dedicados a uma busca de afe- tação com os lugares. Ou seja, eles que- rem despertar sentimentos de pertenci- mento, não tentam encontrar culpados, não possuem uma proposta efetiva de reaproveitamento ou revitalização. Pelo contrário, a revitalização seria entrar no caminho mainstream da especula- ção, higienizar e vigiar. Diferente disso, as iniciativas as quais me refiro estão buscando dar sentido, novos olhares e percursos, para um uso simples e pro- fundo, sem controles, semmedos. São diversos os projetos, ações, propostas, difícil assumir a responsabili- dade de listá-los. Nem vou entrar nessa, mas vale pontuar algumas referências eles se conectam por estarem dedicados a uma busca de afetação com os lugares.
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