38 Com isso, vamos reproduzindo o efêmero em tudo o que vemos. Cada vez mais o sentido de algu- ma coisa se deduz mais da época a que se reporta do que daquela emque surge. Talvez por isso esteja tão em moda uma vanguarda terapêutica. Na contempora- neidade, tudo possui discurso, mas ope- ra sem o tempo necessário para a escala humana de cognição. A falta de reflexão leva ao efêmero por incompreensão. Como medida estimulante do transitó- rio, temos o ctrl+S e HDs externos. As memórias virtuais como apên- dices de nossa própria memória dão aporte para que executemos mais coisas em menos tempo para que sobre mais tempo e assim executemos mais coisas em menos tempo para que sobre mais tempo e assim... Para evitar o escape de todas as coisas, chegará o momento em que o vazio será uma droga em falta! Perceber o efêmero e lidar satisfatoriamente com ele são coisas bem diferentes. É preciso tambémnão estar pron- to para o sol e não estar pronto para a chuva. Porque se o efêmero nos dá a sensação de fim também proporciona o percurso até a memória do começo. Uma espécie de assimetria perfeita. Todos começamos com o realismo ingê- nuo, isto é, a doutrina de que as coisas são aquilo que parecem ser. Achamos que a grama é verde, que as pedras são duras e que a neve é fria. Mas a física nos assegura que o verdejar da grama, a dureza das pedras e a frieza da neve não são o verdejar da grama, a dureza das pedras e a frieza da neve que conhe- cemos em nossa experiência própria, e sim algo muito diferente (Russel, apud Mlodinow, 2009, p. 14) Com todas as crises e fissuras do contemporâneo em nosso ambiente urbano, qualquer instante de ordem en- che de inquietação. Talvez, pelo fato de praticarmos cotidianamente o fim do dia. Ou, ainda, por estarmos saturados de informações somos exigidos a colo- car o mundo mínimo em movimento. Convidar o tempo a ser espaço, a ser peso, a ser transcurso, porque o tempo não existe sozinho, o tempo somente existe quando uma coisa se movimenta. A cidade se movimenta. Revela um peso vertical. Daí a necessidade da interven- ção sensível para realizar a desintegra- ção poética do peso. Colocar o senso em crítica. Reconhecer diferença entre pro- ximidade e distância. E ver não é ape- nas a apreensão da materialidade da obra; é também penetrar na tessitura de significados na qual cores, linhas, formas, transparências e texturas são veículos. 4 O efêmero é a força invisível que torna possível o devir. Aparentemente incondicionada e abstrata em sua essên- cia, a efemeridade pertence a todos e a ninguém. Mas a cidade não conta o seu passado, ela o contém como as linhas da mão, escrito nos ângulos das ruas. 5 Em tudo o que é urbano se es- conde uma parcela de desamparo e sensação efêmera. A cidade não ensina como explorá-la. Se você não conhece o lugar em que vive, e este lugar não te proporciona como explorá-lo, passa a não habitá-lo. Torna a sua relação com o espaço urbano tão efêmera que não estabelece momento de memória. Re- conhece apenas a transitoriedade das coisas. Repetindo necessidades inédi- tas que dizem tudo, mas não explicam nada. É por meio da sobreposição de imagens que se constrói o sentido ur- bano e efêmero do contemporâneo baseado em cinética e o consumo. Uma espécie de sinestesia com inflação de informações, imagens e sons que não significam informações a mais, pois o NUMA SOCIEDADE QUE REVERENCIA UM BANCO DE DADOS DE INFORMAÇÕES É EXIGIDA UMA NOVA DIREÇÃO. VITOR MESQUITA URBE | # 04/04 | efemeridades URBANAS
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