40 URBE | # 04/04 | EFEMERIDADES URBANAS A afirmação de que a cidade real é imaterial – assim como este texto a que tal afirmação serve como título – surgiu da tentativa de responder a uma dúvida suscitada pela leitura de um trecho do livro O mundo codifica- do: por uma filosofia do design e da comunicação , de Vilém Flusser. No capítulo intitulado Forma e material, em que se propõe a, seguindo uma li- nha de raciocínio fundamentalmente idealista, “recuperar o conceito, atual- mente distorcido de imaterialidade” 1 , Flusser atribui ao termo “imaterial” – como já o faziam os antigos filósofos gregos – o mesmo sentido que ao de “ideia” e “forma” para concluir dizen- do que imaterialidade não é o oposto de materialidade. Em suas palavras, a “‘imaterialidade’ ou, no sentido estri- to, a forma, é precisamente aquilo que faz o material aparecer.” 2 A ideia básica é esta: se vejo alguma coi- sa, uma mesa, por exemplo, o que vejo é a madeira em forma de mesa. É verda- de que essa madeira é dura (eu tropeço nela), mas sei que perecerá (será quei- mada e decomposta em cinzas amorfas). Apesar disso, a forma “mesa” é real e o conteúdo “mesa” (a madeira) é apenas aparente. Isso mostra, na verdade, o que os carpinteiros fazem: pegamuma forma de mesa (a “ideia” de uma mesa) e a im- põem em uma peça amorfa de madeira. Há uma fatalidade nesse ato: os carpin- teiros não apenas informam a madeira (quando impõem a forma de mesa), mas também deformam a ideia de mesa (quando a distorcem na madeira). Transcrevo esse parágrafo para contextualizar a sentença que o encer- ra e que suscitou a dúvida que originou este artigo: A fatalidade consiste também na impos- sibilidade de se fazer uma mesa ideal. Reduzida a afirmação de Flusser a seus termos constitutivos, “a mesa ideal é uma impossibilidade material”, preci- samos saber se tal impossibilidade se deve ao fato de que os ideais mudam conforme mudam os tempos e os in- divíduos, ou se, como acreditavam os filósofos platônicos, ao fato de que os artífices humanos são incapazes de ma- terializar o ideal. Antes de seguir, seria útil estabe- lecer um significado e um alcance para a palavra “ideal”. A noção de “ideal”, atri- buto daquilo que é desejável, sinônimo de modelo, de meta a ser alcançada, de objetivo a ser realizado, é uma das mais resistentes heranças da tradição filosófica grega para o pensamento e para a cultura ocidental. Na raiz dessa antiga concepção, situa-se o princípio platônico de que, subjacente ao mun- do material, existe outro mundo que lhe é anterior, que lhe dá origem e que é constituído de ideias primordiais. Importa ter esse significado em mente para que não se confunda “ideia” com “ideal”. Se ideal fosse sinô- nimo de ideia, uma mesa não precisa- ria ser material para existir, porque o que caracteriza uma mesa não é a sua configuração formal nem a matéria de que é feita, nem mesmo a ideia que lhe indica a forma, e sim o melhor uso que FABRIANO ROCHA A cidade real é imaterial A cidade ideal não é verdadeira nem falsa, é apenas mais um limite a ser transposto na direção do real.
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