Palco Giratório 2025
026 /1/ em princípio. antes de tudo. você só organiza um festival de teatro por- que quer muito conversar com a cidade, mesmo sabendo que o modelo geral de cidade urbana está distante de ser um ambiente solidário. cidade de classes. cidade multifacetada. uma cidade, na verdade, são muitas cidades existindo simultaneamente por trás da máscara de cidade oficial. cidade das mazelas vi- síveis e invisíveis. daí que um festival de verdade toma o cuidado de não fazer recorte temático mantendo privilégios de uns sobre outros, ignorando o equi- líbrio entre oportunidade e excelência. um festival só é realizado para lembrar que a cidade é de toda gente. as fratu- ras e contradições de uma cidade sem- pre estarão presentes no festival como algo a ser superado enquanto modelo de convivência. cada cidade demanda um tipo de festival. cada festival tem que ter a cara do lugar que ele repre- senta, representar o máximo de desejos e pensamentos que emergem daquele lugar. assembleia que está sempre em constante desdobramento. cidade dos comuns. a cidade dos sonhos. 12 toques em tomminúsculo sobre cidade comunidade festival festa programação curadoria território gestão palco giratório e outros por Sidnei Cruz Dramaturgo, diretor teatral e gestor. Nasceu em 1955, no Rio de Janeiro (RJ), onde vive até hoje. Criou e coordenou o projeto Palco Giratório – Rede Sesc de Intercâmbio e Difusão das Artes Cênicas (1998-2007). Doutor em Artes da Cena pela UFRJ. //2// realizar um festival é um gesto comunal. estar em comunidade é criar vínculos, desejo de fazer parte de algu- ma coisa de forma compartilhada, ca- minhar junto com desconhecidos, criar afinidades especiais, ser-em-comum. daí que um festival só se mantém de pé porque sua espinha dorsal é a comuni- dade. a comunidade que vem, dos que virão. comunidade é sempre um lugar pulsante de tensões, assimétrica. a gra- ça e o perigo de estar junto e misturado. ///3/// bora lá no festival? quando você diz que uma coisa é festival, é por- que tem borogodó. o nome da coisa diz muito sobre a coisa. festivus. allegro. a alegria é a prova dos nove, a alegria do nosso tempo na terra. o festival é aqui e agora. sim, o festival é um evento es- pecial, mas nem todo evento especial é um festival. se é festival, tem que neces- sariamente gerar dádivas para a comu- nidade. a meta principal de um festival é mais envolver no sentido amoroso e menos desenvolver no sentido econô- mico. considere isso. ////4//// no mundo antigo e ainda na idade média, todo festival era agen- ciado para celebrar deuses, divindades, colheitas, clima, meio ambiente, comi- lança, beberagem, chegada da prima- vera, vindima de outono, brotação, es- tação das flores, fertilidade. os festivais espalhavam-se pelas ruas, praças, edi- fícios, terreiros, templos, praias, teatros. a galera saía peregrinando de casa em casa, batendo palmas na porta, entran- do, cantando, batucando, dançando.
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