Palco Giratório 2025

027 /////5///// festival é festa. festum. conexão ancestral. encantamento. a celebração é o princípio e o encontro é o meio. diversão, hospitalidade, folias, saberes cotidianos, desregramentos, inversão de papéis. a festa é um tempo em suspensão, tempo socialmente libe- rado para manifestações que geralmen- te são reprimidas. se é festa, tem carne, carnaval, festim. a festa testa os limites do lícito. é proibido proibir. exaltação da vida. a vida é uma coisa gozosa. princí- pio do prazer. exusíaco. encruzilhadas. abundância. multidão. massa. aproxi- mar tudo de todos. com a massa, tudo; sem a massa, nada. ou amassa tudo ou não amassa nada. festival, festa e ritual são originariamente irmãos siameses, experiências simbólicas de retorno ao caos, de excesso, de reparação, de res- tauração, de passagem. rito. mundo ao revés. inversão da ordem social domi- nante. justaposição da ordem e da de- sordem. bom lembrar que o caos só é útil se levar a outra ordem. construção de bordas. desordem consciente. um festival é uma festa que ritualiza, rea- tualiza desconhecidas dimensões da memória coletiva. bora lá na festa? bora lá no festival? //////6////// no escopo do projeto palco giratório, que foi criado em 1998 para dar conta da articulação entre pro- dução cultural local e a produção cultu- ral nacional, por meio de um programa de intercâmbio e difusão das artes cê- nicas, dois vetores básicos sustentam o programa: territórios flutuantes e territórios de pouso. territórios flutuan- tes são os grupos cênicos convidados para a circulação pelo brasil. territó- rios de pouso são os anfitriões, que re- cebem os grupos convidados oriundos de diversas regiões do país, preparam uma concentração de atividades cul- turais aglutinadas em forma de aldeia, mostras, feiras ou festivais. o encontro desses dois territórios é impactante. os territórios flutuantes são os mambem- bes: chegam trazendo bens culturais, le- vando a bordo peças, oficinas, ensaios, publicações, palestras, pensamentos giratórios, intervenções urbanas, expo- sições, diários, demonstrações de pro- cessos de criação, residências artísti- cas, mesas-redondas, conversas com o público, debates, fruição. os territórios de pouso são espaços gregários, conec- tores locais, potenciadores das trocas simbólicas entre artistas e espectado- res. contágio afetivo. volta à vizinhança, dinamizando os subterrâneos da vida social. são os mercados locais, aldeias, conexões moleculares. aldeia: territó- rio simbólico, refúgio a partir do qual se pode criar o sonho da vida, embrião local necessário para germinar o senti- mento de pertencimento, de cidadania cultural. ação política de cultura anco- rada em linhas eficazes e surpreenden- tes de gestão cultural. uma aldeia é uma aldeia é uma aldeia. sociologia da graça de estar junto. potlatch. ///////7/////// no caso do festival palco giratório, há uma especificidade: o festival é um modo de aglutinação, uma combustão, uma miríade de terri- tórios flutuantes convergindo para um mesmo território de pouso, uma linha avançada do projeto palco giratório. fu- são, intercâmbio e difusão. flutuação e pouso. salto triplo ornamental sem rede de proteção. coragem. ousadia. corpo efervescente. um festival regular, con- tínuo e sistemático. 20 anos! o festival é um potente meio de entretenimento e equilíbrio das relações criativas na ci- dade. evoé! festival palco giratório. por- to alegre. avisa lá que eu vou. //////8////// ver com os olhos li- vres. o que você vai ver é o que você ainda não viu. aliás, você vai viver, com outros, conviver. você atrai coletivos de todo canto do país, do mundo, seduz, convoca, convence, cura. curadoria não é um fim em si mesmo. não é o olhar que sabe e se pensa como um guia uni- versal. no nada, respire. curadoria é a gira e o dervixe. às vezes, uma vagabun- dagem iluminada, um pirilampo vadio, no máximo um oráculo da noite. não está em causa aqui o ato de reunir os melhores numa exibição ou desfile de peças eleitas pelas qualidades intrín- secas que logo serão transformadas em critérios estéticos, modelos para a ex- clusão daquelas que assim não serão, se não lhes parecem. a curadoria é a arte da mediação, é um dos principais elos das conexões contemporâneas entre cultura e cidade. a atividade curatorial transforma-se em ação cultural quan- do mescla imaginação, ação, reflexão, transgressão. curadoria colaborativa, acordo entre muitos, para além do gos- to pessoal. curare: saúde/doença, re- médio/veneno. curadoria compreende uma ética do cuidado. cuidar é escutar a demanda da vida. a curadoria cons- pira, transpira. num festival, a trans- piração é o elo que tece, dia após dia, a maneira variada que sempre se faz ne- cessária. arte da tecelagem. cada noite de performance é uma surpresa, como ummorango quente dentro de uma bola de sorvete de flocos, de sabor estranho, festival é multiplicidade, muita coisa rolando ao mesmo tempo.

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