Palco Giratório 2025

029 Foi em uma travessia do extremo norte do Brasil — de Macapá rumo ao sul, até Porto Alegre — que os caminhos de umdançarino-pesquisador do Laguinho, se cruzaram com o coletivo piauiense Original Bomber Crew. O Laguinho, bairro de origem negra em Macapá, constitui um território onde a ancestralidade dita o ritmo da vida, e onde a memória coletiva pulsa nos tambores domarabaixo, nas ladainhas, nas quadrilhas juninas e nas toadas de boi-bumbá, alimentando uma vontade constante de fa- zer da arte uma necessidade vital. Do outro lado vinha do Piauí, emcircu- lação pelo Palco Giratório, o Original Bomber Crew— coletivo que carrega em seu cerne o toque do berimbau, a ginga ancestral da capoeira, o bre- aking e o diálogo permanente coma dança contemporânea. Assim como no Amapá, também ali a natureza parece coreografar a vida: o som dos rios, o balanço das árvores e a passagem dos ventos conduzem os corpos por caminhos que talvez fossem inimagináveis para nossos ancestrais. O encontro inicial ocorreu em 2025 durante o Seminário Nacional do Palco Giratório, em Porto Alegre, quando assisti ao espetáculo Vapor. Naquele momento, meu corpo tremeu, as lágrimas escorreram e meu coração ba- teu mais forte; senti-me abraçado de uma forma que apenas quem está longe de casa consegue compreender plenamente. Mais do que assistir a um espetáculo, vivenciei uma verdadeira ativação ancestral, um gesto simbólico de conexão entre o Norte e o Nordeste do Brasil. Pablo Sena Dançarino-Pesquisador / AP

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