Palco Giratório 2025
038 bate com as normas e na constante ne- gociação com o poder, ou mesmo com a violência ou a sensação de violência, em suas palavras, que a cultura de rua revela sua potência transformadora . Ele também abordou como as expres- sões populares, muitas vezes margina- lizadas ou invisibilizadas, conseguem se afirmar e até mesmo subverter lógi- cas dominantes, criando novas narrati- vas e modos de existir. Especialmente a população negra, excluída historica- mente dos espaços institucionalizados. Ao final, Simas reafirma a impor- tância de reaprender a ler as ruas, de se sensibilizar para suas nuances e de reconhecer a profunda sabedoria que emana delas. Sua palestra, portanto, no Seminário Palco Giratório foi um con- vite à escuta atenta e ao respeito pelas múltiplas formas de vida e criação que florescem no tecido urbano, reafirman- do que a verdadeira riqueza cultural do Brasil. O 6º Seminário Palco Giratório demonstrou que a cena contemporânea é um organismo vivo, pul- sante e em constante diá- logo com o seu tempo. Isso posto, os temas abordados nas mesas temáticas se entrelaçam e se complementam, formando um mosai- co complexo e inspirador. A coletivi- dade, a comunidade, a acessibilidade, a educação e as práticas no espaço urbano não são apenas conceitos iso- lados, mas elementos interconectados que impulsionam a arte a ser cada vez mais relevante, inclusiva e transfor- madora. Além do Seminário, a Zona Cultural também recebeu o ‘encontro com os curadores’ no qual a equipe de curado- res dos SESCs de diversos estados bra- sileiros presentes no evento promove uma conversa sobre curadoria no Palco Giratório e, ao final, instaura uma ‘roda de apresentação’ dos grupos e coletivos gaúchos para a divulgação de seus tra- balhos aos presentes. Esta ação é orga- nizada pelo SESC-RS. Minha presença ali se deu como um voyeur, acompa- nhando as conversas e os modos de divulgação e apresentação dos coleti- vos regionais. Gostaria de ressaltar a importância dessa ação para o amplo conhecimento de como se estabelece o plano curatorial das unidades do SESC espalhadas pelo país em sua diversida- de e dimensão na construção e seleção dos espetáculos que estarão partici- pando do Palco Giratório, que hoje é, sem sombra de dúvida, o maior e mais potente projeto de circulação das ar- tes cênicas no país. Simultaneamente, qualifica a produção local para apre- sentação de seu portfólio de trabalho. Festival Palco Giratório 2025: um olhar pontual A diversidade foi a palavra de or- dem de mais essa edição do 19º Festi- val Palco Giratório - SESC-RS. Durante a semana, que estive presente no even- to, pude assistir produções regionais e nacionais das diversas linguagens das artes da cena. O teatro, o circo, a dança e a performance se fizeram presentes por meio de artistas e/ou coletivos brasilei- ros com suas poéticas próprias, todavia, em contato com as questões do nosso tempo. Nesse momento difícil para as artes no Brasil, um festival desse porte é mais que importante, é significativo e necessário por gerar espaços de encon- tros e reflexões entre artistas de diver- sas regiões e o público presente. Além das apresentações artísticas, o Festival gera conexões, provoca novos modos de existir no/com o mundo e estabelece comunidades transitórias nos diversos espaços cênicos da cidade de Porto Ale- gre nos quais os espetáculos e aconteci- mentos são apresentados. Neste sentido, lanço aqui um olhar pontual e panorâmico por temas e questões que me foram lançadas pelos espetáculos e acontecimentos da pro- gramação do Festival, em diálogo com elementos presentes na cena contem- porânea, de forma a partilhar com os/as leitoras desse texto esses pensamentos soltos, ou tessituras alinhavadas. A cena contemporânea brasileira constitui-se a partir de, pelo menos, três dimensões: o do ritual (ou da brincadei- ra), a espetacular e a do acontecimento. É possível identificar nos diversos es- petáculos presentes na programação do Festival uma ou várias dessas dimen- sões. Contudo, como um espetáculo manifesta cada uma dessas dimensões seu vínculo com os espectadores? Para iniciar, partimos sempre da ideia de que a cena deve ou procura estabelecer vín- culos com materiais de diversas ordens que, corporificados pelas atrizes e ato- res, se relacionam com seus espectado- res. A dimensão ritual ou brincante nas artes cênicas apresenta este vínculo sem hierarquias ou divisões espaciais, ou seja, atores/atrizes e espectadores na mesma ‘condição’ diante do rito ou da brincadeira. Joga-se junto literalmen- te. Por sua vez, a dimensão espetacular pressupõe uma certa distância entre os fazedores e os espectadores que ao en- contrar o espetáculo vai estabelecendo vínculo cognitivo em relação à obra. A dimensão do acontecimento estabe- lece ao mesmo tempo um certo distan- ciamento entre os atores/atrizes e os espectadores e um estar-junto em uma zona de contágio, amorosidade e risco (entre outras). Artaud defende um tea- tro que (re)encontre o ritual, o encanta- mento, o mito, a metafísica e a alquimia. Ele propõe um teatro em que a cena seja o foco principal e o texto ganhe uma di- mensão além dos significados linguís- ticos das palavras. Em suma, um teatro
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