Palco Giratório 2025
039 onde a magia seja algo visível na cena e promova o pestiamento de todo o públi- co diante do apresentado. Diz ele: Dessa forma, as artes cênicas devem revelar o fascínio que libere o espírito de quem participa dele como um ritual. Tomo aqui a perspectiva do ritual como eixo central de reflexão porque percebo que os espetáculos que assis- ti no Festival, por meio de dispositivos cênicos diversos, buscam estabelecer novos modos de relação com as es- pectadoras. Um dos dispositivos muito presentes na cena são as evocações de imagens, musicalidades e objetos das tradições afro-brasileiras e amerín- dias. Isso se manifesta tanto do ponto de vista mais localizado na cena em si, como material cenográfico, por exem- plo, em que muitas vezes estão apenas vinculados ao tema do espetáculo e não produzindo um campo poético mais ampliado e ficando apenas no campo ilustrativo no tratamento da questão. Por outro lado, num outro ponto de vis- ta, temos a ancestralidade conduzindo as escolhas poéticas, e nesse sentido, os elementos ganham uma outra vibração, para além da cena, evocando às forças invisíveis que configuram um elemento fundamental nessas tradições não eu- rocêntricas. Penso que a cena deve estabelecer diálogos com as tradições e cosmogo- nias que lhe sejam interessantes para cada projeto artístico, mas quando des- locamos elementos pertencentes a de- terminados territórios culturais para a cena, isso deve ser realizado com um profundo conhecimento, ou até mesmo, que se percebe e percebe as coisas que acontecem na experiência. Sua muscu- latura e sua subjetividade no encontro com os materiais. A escuta permite a experiência psicofísica e imaginária com os materiais, possibilitando que o pensamento lateral e associativo se ins- tale e, em tensão com uma compreen- são mais intelectual do texto, pautada no ponto de vista do/a autor/a, possa dialeticamente promover modos dis- tintos de habitar a ficção. Desse modo, a atuação buscará linhas de fuga, ou perspectivas dissociativas diante dos materiais e do tema. A dimensão do jogo é a ampliação das primeiras em um campo relacional. O jogo cênico só se instala na relação, ou seja, na abertura para o desconheci- do, para a coletividade. Uma instância de movência constante é o que diversos espetáculos me proporcionaram. A pre- sença de uma dimensão imersiva em vários trabalhos, seja ao me levar para novas configurações do espaço cênico — mesmo estando dentro de um espa- ço teatral —, seja pelos novos modos de receber e se relacionar com os especta- dores para que o acontecimento se dê, ou até mesmo num fluxo contínuo de deslocamento do público pelo espaço, gerando outros modos de espectação, talvez mais fragmentado e rizomáti- co da obra. Ou seja, o chamado Teatro Relacional, no qual os convidados para o acontecimento são imprescindíveis para a realização do mesmo, menos como observadores atentos e mais para agir com, está presente e pulsante na festa de aniversário, com bolo, refri- gerante e cachaça, como convidados do Pavilhão da Magnólia (CE). Conse- quentemente, com isso, opera uma rup- tura da representação, pensada como fingimento, e instaura uma representa- tividade do acontecimento. Cada espe- “(...) se o teatro é como a peste, não é apenas por atuar sobre importantes coletividades e por transtorná-las do mesmo modo como se faz a peste. De fato, existe no teatro, como na peste, algo de vitorioso e de vingador ao mesmo tempo.” (p. 39). vínculo pessoal, com essas tradições e cosmogonias, e que a cena, com a rea- lidade que lhe é própria, possa reco- locá-las dentro de um campo poético específico e não apenas como material ilustrativo do tema, como no espetácu- lo Encruzilhada (RS) e na performance Ané das Pedras (CE). Uma questão que venho refletindo atualmente, e que aparece também nos espetáculos do Festival Palco Giratório, é a possibilidade de reconvocar a ficção para o centro do acontecimento teatral. Muitas experiências cênicas contem- porâneas de caráter liminar tensionam com a noção de ficção e reivindicam o real em cena. O que quero refletir é me- nos o caráter performativo dessas prá- ticas, mas sim um (ou vários) modos da atriz e do ator habitar a ficção. Habitar significa instaurar uma corporeida- de em um tempo-espaço organizado e compartilhado. No campo teatral, pode- mos dizer que é encontrar com o texto e/ou materiais de criação, instaurar no corpo, encontrar seus espectadores, ha- bitá-lo. Uma primeira dimensão para instaurar o habitat é a escuta. Uma abertura sensível e crítica aos mate- riais. Uma escuta extraordinária, como nos propõe Anne Bogart na prática dos viewpoints, significa a perspectiva do ator e da atriz exercitar sua capacida- de de escuta, percepção e jogo. As di- mensões da escuta e da percepção, em uma primeira instância, ancoram-se no sujeito, ou seja, naquele ou naquela
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