Palco Giratório 2025
049 pede silêncio enquanto ele vem de outra cultura. Só no terceiro dia é que a gente começou a trabalhar tecnicamente o va- lor da palavra. No final, estávamos todo mundo comungando com ele, que dizia: ‘Não dá para voces entenderem tecnica- mente nada do que quero compartilhar com vocês se não souberem de onde eu venho, quem eu sou’. Foi uma mudança de chave nas relações de ensino-apren- dizagem, nunca tinha pensado por aí. O Sotigui ensinou outra coisa a nós, brasi- leiros, festivos, alegres, que precisamos aprender. Muitos atores participantes levaram crianças, pois era Dia dos Pais, e alguém pediu silêncio. E o orientador da oficina ponderou: ‘Não, na África a gente trabalha nos quintais. No Mali, a gente aprende a se concentrar enquanto toda a comunidade, as crianças, estão se diver- tindo”. Ali eu vi a nós mesmos por meio da fala do Sotigui, o desejo de estar com outro me faz transformar. O que pode muitas vezes nos fazem prender. Eu, por exemplo, não quero afirmar minha iden- tidade, quero me reinventar, não ter uma identidade. Eu sou do Rio e moro emMi- nas a uma porrada de tempo, vou a Mi- nas e dizem que sou de lá. Isso constroi um nós mais interessante, nos permite entrar nas ficções, no mundo do teatro”, disse Telles. Telles pontuou sobre o livro em que foi umdos organizadores, Teatro e dança como experiência comunitária (Eduerj, 2009), ao lado dos pesquisadores Zeca Ligiéro e Victor Hugo Pereira, em que são analisadas as práticas artísticas comunitárias centradas em trabalhos como os da Companhia Étnica de Dança e Teatro, no Morro do Andaraí, e Nós do Morro, do Morro do Vidigal. Há um vasto material de artistas engajados em uma arte libertária, estimulando reflexões so- bre cultura, cidadania, política pública e educação, além de entrevistas com cria- dores como Augusto Boal, Amir Haddad, Guti Fraga, Carmen Luz e Antonio Pedro Borges. “Nesse livro, o Amir declara que foi entender o que é ensaio vendo escola de samba. Para ele, o ensaio tem uma di- mensão de encontro e prazer, em vez de repetição de mecanismo a partir de uma obra em si. Por isso, sempre é muito bom conhecer outras práticas comunitárias a caminhar pelo mundo da arte”. Em seguida, o mediador propôs uma pensata. “A busca por uma coletividade que a gente emalgummomento chamou de teatro de grupo era um desejo nosso de se manter junto durante um tempo para a construção de uma poética polí- tica. Para estabelecer com espectadores uma ideia de comunidade temporária, autônoma, limiar... Queria ouvir como percebem em seus cenários essa pers- pectiva hoje. Se existe um desejo dos estudantes de teatro em formar coleti- vos, com tudo que isso implica e já foi dito aqui. Lembrando que hoje a gente está vendo na cena uma mudança da ideia de espetáculo para uma ideia de acontecimento. E acontecimento, para mim, é uma dimensão comunitária. A interação, o diálogo e a manifestação nos tiram da velha ideia de expectação. A coletividade para mim está sempre no mundo do teatro”. Entre as participações do público, a analista cultural do Sesc Canoas, Isabe- la Silveira, nascida na Bahia, mãe, ges- tora, criadora e feminista, conjecturou: “Como trabalhar nas alteridades, como construir pontes com as outras idades, como discutir, não necessariamente dialogar, mas construir campos de es- cuta mínima para entender o que esse capitalismo tardio está nos falando, o que é que os algoritmos estão nos en- sinando. Como construir campos não apenas de disputa, porque disputar esse corpo, aqui, quase todos já sabem, mas de conversa com esses outros que pare- ce que estão nos espremendo para um cantinho, a ponto de a gente ser expeli- do desse tecido social. Tem corpos que estão treinados nisso. Nesse sentido, o [líder indígena e ambientalista Ailton] Krenak é genial: ‘O mundo está aca- bando para vocês, brancos, para a gen- te está acabando desde 1500, e a gente está aqui dando um jeito’, ele diz mais ou menos assim. Aqui eu sou lida como negra ou parda, na Bahia sou branca, sem dúvida alguma, claro, gente, por- que a Bahia é preta. Eu sei o que é a mi- nha passabilidade, posso requerer o que quiser. As identidades são relacionais. Pois como a gente que pratica as escrevivências, os encantamentos, que quer e está ocupando as universidades, como se relacionar com esses que não nos querem existindo? ”. Dia 2 Na conversa em torno do tema “Com- partilhar: Acessibilidade na Cena”, dia 27/5, terça, a predominância capacitis- ta da sociedade foi descortinada logo na largada pelo poeta e artista Cláudio Mourão, professor na UFRGS e coorde- nador do projeto Arte de Sinalizar, volta- do à cultura surda. “Onde estão as pes- soas surdas, elas não sabem o que está acontecendo aqui na Zona Cultural?”, in- dagou. “Só uma pessoa surda na plateia.
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