Palco Giratório 2025

048 convencionais, como balé clássico, para apropriar-se estilisticamente da cultura afrocentrada de uma escola de samba, eixo do Grupo Âmago, do qual foi um dos fundadores em 2018. Em certa medida, a identidade do coletivo passa pelas cores azul e cinza da escola de samba local. Não por acaso, o emblema do Âmago é de uma árvore com um coração no cen- tro. “Um desenho que, vim descobrir depois, com o conceito da árvore que [Augusto] Boal ilustrava para dar a ver o sentido de coletividade, uma estrutura que está na base das técnicas do Teatro do Oprimido”, explica Pablo, que parte desses alicerces para repensar a dança. Inclusive em nível de mestrado, ao pes- quisar acerca de como as corporeidades amazônidas precisam ser reconstruí- das levando-se em conta a beira do rio, a floresta, o conhecimento ancestral, as plantas que curam, “a tecnologia ama- zônida que está, por exemplo, no manejo de alimentos, sem o estigma da floresta que tem que ser preservada como capital investido no lucro futuro”. Perceber como essas heranças ances- trais se reterritorializaram foi a tônica da participação do bailarino, enquanto artista amazônida na periferia da Amé- rica Latina, praticante de uma dança e de um teatro tidos como “folclóricos”, um lugar em geral não reconhecido como contemporâneo ou clássico na régua de parte do circuito de festivais e mostras nacionais. A encenadora e dramaturga Patrícia Fagundes, cofundadora da Cia Rústica de Teatro, em2003, docente no Departamen- to de Arte Dramática da Universidade Fe- deral do Rio Grande do Sul (UFRGS) e an- fitriã do seminário na Zona Cultural, pois faz parte da administração do espaço aberto em março de 2023, observou que O que não a demove de “colocar meu teatro no mundo” , essa arte que, segundo ela, “vinga como capim no concreto” . Como costuma dizer em suas au- las, o teatro é uma experiência coletiva, “para bem e para o mal”. “Porque é difí- cil conviver, estar junto, especialmente em tempos de exaltação a conquistas individuais, ao seja empreendedor de si mesmo, vai para o teu sucesso, a [difi- culdade quanto à] apreensão do sentido de comunidade, inclusive. Todo confli- to implica fricções. ‘Sem fricção não há fogo’, já disse Anne Bogart, a diretora estadunidense, quando pensou a cola- boração em processo de ensaio”, afirma Patrícia. “Aliás, a própria imagem da colaboração em grupo como um ideal de unidade harmônica, em que tudo é concordâncias e good vibes, resulta uma armadilha, compõe o projeto de indivi- dualização e isolamento das pessoas na lógica produtivista-capitalista que mar- ca esse tempo que a gente pode chamar de capitalocêntrico.” O “capitaloceno” é um termo usado por alguns teóricos para descrever a atual época geológica. Surge como uma críti- ca ao conceito de “antropoceno”, argu- mentando que nem toda ação humana é igualmente responsável pelas mudan- ças ambientais. Enfatiza que o capita- lismo, com sua busca por acumulação de capital e exploração de recursos, é o principal motor da crise ambiental. Patrícia persevera no foco relacional ao diagnosticar que “a tentativa de nor- matizar a comunhão para direcionar e fixar uma permanência acaba, com frequência, matando a possibilidade do grupo”. Quanto a esses que entende como microterritórios, “a gente foi de- sensinado”. Pano rápido, a incentivado- ra da noção de festividade na criação cê- nica, aliança de pessoas, tempo, mundo, memória, futuro, “sempre no entre das gentes e das coisas” , a fim de fazer festa em fronteiras, no “roçar corpóreo do aqui agora em que muita coisa pode aconte- cer”, a artista da cena evoca o cantor e compositor Emicida em É tudo para on- tem: “Viver é partir, voltar e repartir (é isso)”. Escalado para a mediação do debate, o ator, diretor e dramaturgista Narciso Te- lles, integrante do Núcleo 2 (MG) e pro- fessor na Universidade Federal de Uber- lândia, compartilhou a experiência de participar de uma oficina no Rio de Ja- neiro com o griot Sotigui Kouyaté (1936- 2010), mestre da palavra na tradição de seus ancestrais no Mali, que vem desde o século XIII. A pessoa griot não permite que a cadeia de transmissão dos conhe- cimentos fundamentais de uma vida se apague, premissa da cultura oral na Áfri- ca Ocidental. No Brasil, onde já se apre- sentou, e em outras partes do “Ocidente”, Kouyaté tornou-se mais conhecido pelo trabalho de ator no teatro do inglês Peter Brook ou no cinema do italiano Bernar- do Bertolucci. “Era um curso só com atores, pes- soas que estavam nas novelas e que- riam trabalhar tecnicamente como usar as palavras. No primeiro dia, o Sotigui exibiu um vídeo com a família dele. No segundo, narrou o início da história dele, como foi trabalhar com Brook, um africano chegar à França, o convívio na sala de ensaio e treinamento, que já cria uma relação de trabalho, em que se “Vivemos dores e amores nesse campo do trabalho coletivo”.

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