Palco Giratório 2025
052 Só nós dois? Poucos, não? Onde estão os outros? Ok, aquela pessoa ali [apontan- do para a plateia] usa aparelho, domina a linguagem oralizada. E onde estão as pessoas surdas que usam a língua de sinal?”. Ao chamar a atenção para o pa- radoxo do quórum, acrescentando que visitou eventos internacionais como o Festival Clin d’Oeil, na França, que aco- lhe as artes em língua de sinais, e nacio- nais, como a Mostra Surda de Teatro, em Curitiba, ambos com a presença de mi- lhares de pessoas surdas, Mourão exem- plificou como a acessibilidade tensiona parâmetros excludentes de “normalida- de”. Isso denota a necessidade de con- templar diferenças, “acolhendo a diversidade de corpos, perspectivas e experiências como urgência para transformações sociais necessárias”, segundo informou o material de divulgação. “Minhas mãos são a minha língua. A nossa luta é nossa língua”. Um segundo participante, o especia- lista em audiodescrição Rafael Braz, sócio na empresa Mil Palavras Acessi- bilidade Cultural e atuante desde 2016 a partir de conteúdos audiovisuais e cênicos, também comentou: “Vocês se deram conta de que a gente está aqui falando de acessibilidade em um even- to que não tem acessibilidade para pessoas com deficiência visual como eu?”. Ele é pessoa com deficiência vi- sual, baixa visão, e disse saber que a caminhada é árdua e encontra muitas barreiras quando está buscando am- pliar os espaços de acessibilidade e formação de público. Inclusive no meio artístico-cultural, em que costuma ou- vir pensamentos como: “Por que vou contratar audiodescrição para o meu espetáculo se muitas vezes as pessoas com deficiência não vão? Vou trazer pela mão as pessoas com deficiência, de uma forma assistencialista?”, dis- se costumar ouvir. “Público é público, tendo deficiência ou não. É uma traje- tória de muita exclusão. Se a população em geral muitas vezes não tem acesso à cultura e à arte, imagine as pessoas com deficiência”, afirmou. Para não dizer de calçadas com desníveis, de transporte público não adaptado, de motorista de aplicativo que às vezes estaciona no lado oposto da via pública ao endereço que indicou. Já a performer, videoartista e au- todeclarada terrorista poética Estela Lapponi (SP), por sua vez, pesquisa o discurso do corpo com deficiência e criou o conceito “Corpo Intruso”, com a persona Zuleika Brit como contêiner performativo. Foi por meio de Zuleika, figura caracterizada sutilmente pelo uso de óculos cuja armação é manchada com tinta prateada, que ela sublinhou: “Essa nossa existência é uma experiên- cia que não pode não ser política, não tem outro jeito de ser. O tempo todo a gente tem que ser política”. E leu trechos do seu Manifesto antiinclusão, publica- do originalmente em seu blog, em 2015, depois incorporado ao livro Corpo in- truso - uma investigação cênica, visual e conceitual (Casa de Zuleika 2023). “A minha deficiência é uma hemiparasia do lado esquerdo do corpo, decorrente de um AVC, uma explosão de aneurisma há 28 anos”, disse a participante, acerca da fraqueza muscular causada por lesões no sistema nervoso central, como o cére- bro ou a medula espinhal. Ela é dedicada à produção de conhecimento emestudos da deficiência a partir da sua prática ar- tística. “Eu sou uma artista da cena, do cinema, da performance, do teatro, da dança e muito mais. Primeiro vem a ar- tista, não só a pesquisadora, a que sabe falar, mas a que sabe estar no palco, provocando, cutucando e incomodando muita gente”. Estela joga luz sobre exis- tências desumanizadas, coisificadas, trancafiadas, institucionalizadas, isola- das, proibidas, “que são até hoje esque- cidas” e “constantemente alvo de ódios, ridicularizadas, sinônimos de vergonha, diariamente julgados por ser o que são”. Para a mediadora Marcia Berselli, ar- tista da cena, docente na Universidade Federal de Santa Maria e pesquisadora em práticas cênicas e acessibilidade, a perspectiva do sensível deveria tocar todas as pessoas, até pelo viés da falta. “Como mudar a lente para pensar o que é que nos toca quando a gente ouve es- ses relatos e manifestos? Será que en- quanto pessoa sem deficiência, o que nos pega primeiro é a ausência em que a gente se reconhece como colonizador e colonizadora? Ou é aquela ausência como potência criativa que se desvela para a gente?” , questionou. Do público, a atriz, artesã e educadora Caroline Falero chamou a atenção para a relevância da autodescrição no início das falas das pessoas participantes do debate. “Pessoas brancas são a norma e elas normalmente não se nomeiam. Isso precisa ser normatizado. Trago para pro- blematizar. Muito importante ouvir falas de autoestima e orgulho de ser surdo, ver um corpo que é outro, que responde em outro lugar. Até por ser mulher negra, de periferia, que teve acesso a determi- nados espaços, eu nunca tinha visto lá uma pessoa em cadeira de roda, porque cadeira de roda é cara, muletas eram mal- ajambradas e diagnósticos de sur- dez, coisa muto difícil de se conseguir no SUS”, disse, confessando-se admira- da em presenciar duas mulheres negras trabalhando como intérpretes de Libras no evento, “e não em lugar de subalter- nidade”. Ao final do encontro, Estela Lapponi lançou e autografou exemplares de Cor- po intruso.
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