Palco Giratório 2025

053 Dia 3 Comos se sabe, as artes cênicas in- filtram-se no tecido social e aconte- cem em espaços diversos, a exemplo da escola, senhora da territorialidade seminal no campo das experiências e invenções de realidades possíveis em distintos estágios da existência, daí a meditação acerca do tema “Escola como lugar de criação”, em 28/5, quarta. Atriz da Usina do Trabalho do Ator e professora do Colégio de Aplicação da UFRGS, na capital, com incursão fundamental pela rede pública mu- nicipal de São Leopoldo, Dedy Ricar- do dividiu seu ponto de vista a partir da vivência da negritude convergen- te nas forças do teatro e da educação. “Esse é uma fala militante. Sou artista militante, professora militante, uma mãe militante pelos direitos humanos, pela educação antirracista. Não tem como eu falar e não estar militando, sempre. Confesso que às vezes até não gostaria, queria simplesmente exis- tir”, afirmou a palestrante cujos cabe- los dreads reafirmam a ancestralidade. “A arte educa mesmo quando ela não está sendo ensinada, mas apenas fluída. Foi assim que aprendi quando iniciei minha trajetória em projeto cultural de descentralização da cultura que levava oficinas de arte para as periferias de Porto Alegre, colocando o estudo das artes ao alcance dos nossos pés. Era só caminhar caminhar até o centro cultural perto de casa. Seja no espaço formal da escola, sejano equipamento cultural, são sempre um local de criação, de outras criações de si, a partir dos conhecimentos com os quais a gente dialoga”, considerou, ad- mitindo, por outro lado, a sua predileção artística-pedagógica pelo teatro de rua. Dedy aportou aspectos de sua pesqui- sa de mestrado em educação, Negritude e formação teatral - vozes mulheres na cena de Porto Alegre (2015-2017), so- bre os poucos papeis que existiam para essas atrizes. “Foi importante ouvi-las para que eu criasse uma metodologia. Elas responderam que trabalhar em teatro de grupo e não em companhia fazia com que pudessem ter protago- nismo na cena. Já para o doutoramento então em curso, a artista se debruçava sobre uma pedagogia de teatro em sala de aula, no pátio ou no auditório da es- cola com conteúdos menos eurocêntri- cos e anglo-saxões. Uma das principais inspirações veio do livro Brincadeiras africanas para a educação cultural , de Debora A. Cunha, por meio do qual vis- lumbrou um caminho metodológico a partir das brincadeiras africanas e afro- -brasileiras, a fim de “enegrecer os tons da pedagogia do teatro”. A pesquisadora fez questão de pontuar acerca do raro cumprimento no país da lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de his- tória e cultura africana e afro-brasilei- ra nas escolas, complementada pela lei 11.645/2008, que incluiu também a cultu- ra indígena, visando combater o racismo e valorizar as contribuições africanas e indígenas na formação. Segundo estudo de Geledés Instituto da Mulher Negra e Instituto Alana, divulgado em 2023, 71% das secretarias municipais de educação realizam pouca ou nenhuma ação para a implementação. Uma vez que este relato já rendeu homenagem à figura do griot na cultu- ra africana, convém destacar o elogio ao ato de fabular na exposição do ator e pesquisador Wellington Menegaz, professor na Universidade Federal de Uberlândia, onde é membro do Grupo de Pesquisa em Drama (GruD) e, longe das cercanias da instituição, integran- te do coletivo Coelhos Mordem. Ele in- troduziu uma brincadeira em torno da mansão rosa e da busca por Cora, perso- nagem, situação e narrativa que trans- portaram a audiência da Zona Cultural ao universo da ficção. “Quis começar minha fala com o primeiro episódio da abordagem do drama com a qual tra- balho há mais de dez anos nas escolas de Uberlândia. Percebo a escola como campo de criação artístico, criação de encantamento, de mundos de ficções. Afinal, é direito de todas as crianças ter esse contato com a arte, indepen- dentemente de classe social. Por isso pensei em duas provocações: 1) quantas escolas há na palavra escola?; 2) quan- tos teatros há na palavra teatro? Bem, quando a gente pisa a escola é preciso largar o teatro para ver que na esco- la existe arte. Ao propor um jogo com minha turma no pátio, ali é um espaço de teatralidade. Sugiro a gente olhar e pensar os múltiplos espaços da esco- la com curiosidade para a arte, como quem cartografa mundos possíveis. O quiosque pode ser umportal para outro mundo, por exemplo. A árvore do fundo pode ser a casa da avó da Cora que vai receber a gente. Faz 50 anos que desapa- receram duas crianças da mansão rosa. As rampas, as escadarias de um castelo. E a biblioteca, o equivalente a um reino encantado com magias. Portanto, em cada espaço eu vejo uma possibilidade de jogo, de invenção. O que a vó da Co- raline pode propor aos detetives e às de- tetives quando chegam em busca de sua neta? Improvisações. Brincar de deteti- ve, habitar o jardim da avó, corresponde a fazer arte, teatro, inscrever o corpo e a voz para reimaginar omundo” , detalhou. Menegaz correlaciona seu trabalho com os 30 anos de dedicação da profes- sora e pesquisadora Beatriz Angel Viei- ra Cabral, da Universidade do Estado de

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