Palco Giratório 2025

055 estão sendo colocadas ali. Já a invenção é de outra categoria, a criatividade pode até ajudar, mas a invenção é caminho sem volta no sentido de que a gente tem que ser capaz de inventar novos proble- mas e não resistir àqueles que existem. A invenção trata de como a gente for- mula novos problemas. Como pensar em não só em resolver, mas formular novos problemas”. Lucienne também trouxe o pensa- mento da filósofa e artista brasileira De- nise da Silva Ferreira, professora na New York University, recorrendo a dois tex- tos dela: Leitura (po)ética, (2015), escrito como parte de uma instalação, e Esta- do bruto (2018), nos quais elabora como pensar em problemas de maneira dife- rente, em arte ou nos demais campos de saberes, e como se aproximar da obra de arte sem o caminhão de conhecimento que adquirimos na vida, como si mesmo, sem impor coisas à experiência que se está fruindo, respectivamente. “Quanto a esses processos de ocupação, que é dis- puta na cidade, e de invenção, fico pen- sando se a gente não pode também falar de uma ocupação que também te devol- ve para você, artista, que está dispondo ali, e se essa invenção na trama da cida- de pode ser criação de novos problemas e não só aqueles que já temos. Fico pen- sando que o papel da gente é imaginar, artista, pesquisador, professor... Como renovar não só a ideia de lidar com todos os problemas, mas, também, reformular os problemas” , refletiu a mediadora. “Se a gente não for capaz de imaginar e de promover o encontro artístico na cidade, quem é que vai fazer isso? Então derivo para algumas questões. Que impasses vocês têm encontrado? Quais maneiras têm escolhido para lidar com a cidade e a arte nesse momento? Quais novos problemas têm procurado inventar? Bem, fico pensando, grosso modo, que a gente tem esperança de seguir nisso que escolhemos fazer. Esperança na categoria da ação”, enfatizou Lucienne, ao passar a palavra. Coube à artista da cena, escritora, ci- neasta e curadora Barbara Matias Kari- ri (CE), indígena da etnia Kariri, que faz parte da Coletiva Flecha Lançada Arte, do Museu-Vivo das Marrecas Kariri e do Grupo Tamain, contrastar realidades da urbe e dos povos da floresta e suas ritua- lidades. Principiou salientando a ideia de desterro, “de pensar em como nossas cidades foram construídas” na América Latina e Caribe, como elas nasceram, o que inevitavelmente leva ao conceito de memoricídio. “Ao invés de pensar inven- ção, pensar também quais os aciona- mentos para a inventividade. Parece que a gente está falando, quando se fala de povos negros e povos indígenas na cena, que é algo muito recente, de agora. Não, gente, essa galera já tem sistema próprio de criação e pode fazer arte em suas co- munidades. Ou mesmo trazer um pouco do cheiro do mato para pensar a cidade, levando-se em conta a história das mes- mas. O que existia antes, em determina- do lugar, que foi aterrado em nome da ci- dade? Ainda sobre territórios ocupados, eu tenho pensado também, como profes- sora, que a gente precisa revisitar nossas aulas de história da arte e história falan- do de classe para classe, enquanto pro- fessores, porque é urgente não recontar a história, mas abrir os microfones a vozes que nunca foram escutadas. Não é pos- sível mais falar da história do teatro no Brasil sem falar que o teatro chega como uma arma de violência, de morte [não bastasse o genocídio de povos indígenas, a colonização portuguesa e a catequiza- ção jesuítica impuseram o cristianismo]. Não há exercício de guerra maior do que tirar a cultura de um povo. O teatro de catequese chega para fazer isso. É im- portante olhar para nossas práticas e pensamentos e descatequizar”, depois de aludir às camadas do plantio como metáfora para envolver outros modos de criar artesanias e de se articular no mundo. Segundo Barbara, a consciência histó- ria amplia a percepção da rua como pro- dução de imagem. “Está documentado, mas faço sempre essa pergunta: Os povos indígenas e os povos quilombolas, essas pessoas dançam? Cantam? Essas pes- soas falam baixo e as vezes falam alto? Tocam instrumentos? Criam desenhos rupestres nas pedras? Pois os povos da terra já faziam isso no ato de caçar, nos momentos de ações espirituais, de ritua- lidades e no convívio no dia a dia. O tea- tro, a dança e a performance são lugares que contam história por meio de corpos humanos e não-humanos desde Pindo- rama [em tupi, “Terra das Palmeiras”, nome ancestral dado pelos povos indí- genas ao território que hoje compreende o Brasil, antes da colonização europeia].” Barbara reivindica a sabedoria de se reconhecer o teatro que nasce com os povos originários e suscita conciliar mo- dos de criar vinculados a modos antigos. “O sonho como perspectiva de vida. Tra- zer os rastros da cidade. Estudar e rees- truturar anoção de tempo. Desde o tempo de cena ao tempo de convívio. Repensar nossas pesquisas, pensar a agricultura tradicional como exercício, como lugar de pesquisa no qual as pessoas fazem coivara para plantar sem derrubar as ár-

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