Palco Giratório 2025
054 Santa Catarina (UDESC), ao processo de pensamento e prática do drama na edu- cação básica no Brasil. Pelo princípio da vivência de papeis, o professor e a pro- fessora também estão como que inter- pretando. “Ver a professor como onça, isso muda essa dinâmica de ficção, tudo está em um tempo-espaço do agora, do futuro ou no passado. Um tempo-espa- ço ficcional que alumbra. Mesmo quan- do tudo na escola esteja programado para repetir, normatizar, silenciar... Um dos caminhos de desenvolver o dra- ma é pensar em parcerias, múltiplas disciplinas, música, história. Quando uma criança fala “Eu sou um detetive”, ela está desenvolvendo um espaço que é dela, do faz de conta, do lúdico. Cora ainda não foi encontrada nesse jogo de esconde-esconde. Mas ela deixou pistas e, talvez, se a gente escutar bem os cor- redores, as árvores, aquele muro rabis- cado, quem sabe a gente pode encontrar a trilha da Cora”. Sempre sob o trabalho de mediação de mesa da professora e pesquisadora Vera Bertoni, da UFRGS, coube ao ator Carlos Modinger, docente no curso de licenciatura em teatro na Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (UERGS), levar em conta a linha de tempo entre a educação infantil e a pós-graduação, ou seja, são anos e anos de formação e muitos atravessamentos na frequência às escolas. Mas, apesar do fluxo por ex- celência das ciências humanas, exatas e da natureza, além das suas interfaces, estamos distantes de um ambiente pro- priamente proativo ou pacífico, a come- çar por governantes e gestores de turno. Políticas educacionais estruturantes de estado costumam ser cooptadas por po- líticas oportunistas de governo de tur- no, despotencializando legados. “As es- colas vêm sendo muito achincalhados. A mídia faz discursos constantes em relação às dificuldades com políticas públicas em níveis estaduais e muni- cipais, não tem ajudado na autoestima desses espaços de educação. Além dis- so, poucas escolas têm atividade tea- tral. Mas elas estão cravadas em con- textos sociais, um universo para além delas. Ao mesmo tempo, escola é o lu- gar de resistência, um lugar para a arte, para criar futuros. Minha provocação é: que caminhos a gente pode percorrer e descobrir juntos para que algum teatro possa vir a ser nesse espaço? Sabemos que o teatro na escola é aula, é compo- nente curricular, é itinerário formativo, é linguagem, enfim, pode acontecer por diferentes abordagens. Quando criança, as experiências mais significativas que tive com as artes da cena foi por meio da escola”, comentou. A intervenção artística da vez ficou por conta da apresentação de um frag- mento de espetáculo do núcleo de teatro composto por estudantes do Colégio de Aplicação da UFRGS, do 9º ano do ensino fundamental até o 3º ano do ensino mé- dio, coordenados pelos professores Fer- nanda Rocha e WilliamMolina. Trata-se de projeto de extensão que existe desde 2022 e visa a “promover a aproximação dos estudantes com alguns aspectos importantes da prática teatral escolar, dentro os quais estão a criação coletiva, o exercício de ver e ser visto, bem como as relações entre palco e plateia, a noção de presença sob a perspectiva do teatro como acontecimento e a vivência da ex- periência estética”. Dia 4 O penúltimo dia do seminário do Palco Giratório na Zona Cultural, em 29/5, quin- ta, foi catalisado pelas urgências da urbe, “lugar de convívio e disputas, no qual diversas propostas artísticas buscam mobilizar experiências de sociabilidade, produção coletiva e renovação de imaginários” , como ambiciou dar abrigo o guarda-chuva temático “Ocupações e invenções da cena: na trama da cidade”. A mediadora Lucienne Guedes, dra- maturga, atriz, diretora, pesquisadora e cofundadora do grupo Teatro da Ver- tigem em São Paulo, em 1992, também professora na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (USP), preparou um preâmbulo em que rememorou a disputa de espaço e de imaginário em criações cênicas como O paraíso perdido, que debutou o Vertigem, encenada no interior da igreja Santa Ifi- gênia, e A última palavra é a penúltima (2008), da qual participou na remonta- gem de 2014, na mesma passagem sub- terrânea entre o Viaduto do Chá e a Praça RamosdeAzevedo, semprena região cen- tral de São Paulo . “Fazer arte na trama da cidade às vezes nos devolve golpes” , disse. “Há intervenções que devolvem a quem ocupa uma série de problemas e ques- tões. São Paulo não é fácil também.” Para pensar invenção, emprestou ideias do artigo da pensadora Virginia Kastrup, da área de psicologia, publicado no caderno pedagógico da 32ª Bienal de São Paulo (2016): Educação e invenção em tempos de incerteza. “Mal sabia ela o que ia acontecer até aqui. A Virginia escreve da diferença entre criatividade e invenção. Para ela, a criatividade usa o que a gente tem. Novas questões não
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