Palco Giratório 2025
058 vores [“coivara” é a quantidade de rama- gens a que se põe fogo nas roçadas para desembaraçar o terreno e adubá-lo com as cinzas, facilitando a cultura]. . Como você pesquisa ou circula sem adoecer?”. De volta à contracena com o espaço urbano: “É ilusão a gente pensar que a cidade para, que a rua para, pois elas são construídas pelo bicho gente. Penso que elas são como cachoeiras e têm vários fluxos, com momentos brabos e outros mais leve. Nesse sentido, é importante fazer trabalhos com arte na rua, princi- palmente nós, mulheres, pensando no fenômeno do feminicídio. Nossos cor- pos estão em constante possibilidade de sofrer violência. Estou cansada de pensar treinamento de ator, vamos pen- sar rituais que também formem gente como ator e atriz, mas que atravesse a nossa alimentação, a roupa, a maneira de amar... Quantas horas você dorme, o que você bebe antes de dormir? Como você escuta outros mundos? Como evi- tar a mera separação e conversar com pessoas de mundos diversos com dig- nidade? Pensar também um pouco em fazer pactos, quebrar padrões, exercitar a musculatura do cérebro e perder um pouco essa preguiça coletiva epistêmi- ca”, dissertou a artista. O professor Eber Marzulo (UFRGS), com trajetória nas áreas da arquitetura e do planejamento urbano, destacou a im- portância das médias ou grandes cida- des enquanto espaços em que os iguais possam se encontrar e os diferentes, conviver, tanto na rua como no trabalho. “Me parece que o teatro, incluindo aí o edifício, é um espaço fundamental do encontro de iguais. Desse ponto de vis- ta, ele é extremamente político. Permi- te que os iguais se encontrem na expe- riência das grandes cidades. Ao mesmo tempo, as narrativas trazidas pelas dra- maturgias permitem que esses iguais se defrontem com experiências distintas, que muitas vezes não são do cotidiano ou da existência da plateia” , disse. Enquanto artistas da dança, Jorge Alencar e Neto Machado, da Dimenti Produções Culturais, de Salvador, cir- cunscreveram suas falas à Biblioteca de dança (2017), criação presente na pro- gramação do Palco Giratório e definida como uma instalação coreográfica em que conversam com o público, corpo a corpo. “Como se documenta arte cêni- ca no próprio corpo e na própria cena? Como produzir uma experiência cogni- tiva, poética e coletivamente na produ- ção de história? E como produzir uma documentação que desaparece à medida que acontece, como é próprio da cena ao vivo? Bem, a partir dessas questões, pro- pomos um pequeno deslocamento de se fazer documento, da perspectiva de es- pectadores e espectadoras. Esse é o jogo principal no sentido de ocupar biblioteca como um jeito de sair de algumas con- formações. Sair um pouco do teatro de quinta a domingo à noite, no desejo de conversar com outras existências, ou- tros modos de conexão. A gente ocupa bibliotecas durante a semana nas ma- nhãs e tardes de segunda a sexta, aqui [na Biblioteca Josué Guimarães - Centro Municipal de Cultura] está acontecendo às 18h. Pois nos interessa imaginar ou- tras posições nessa trama da cena com a cidade. E conversar com gente que, em geral, não frequenta teatro”, explanou Alencar. Ao que Machado complementou: “Na cultura da cidade, a biblioteca é um espaço que abriga e acolhe o conhecimento pautado por esses livros que estão nas estantes e podem ser movidos pelas pessoas que vão até eles. Que acervo é esse que a cidade acha importante cuidar, compartilhar? Essa presença feita da reunião de histórias, teorias, ficções, poesias... A gente chega lá com as ferramentas do movimento, da coreografia, do tempo, da fala, do encon- tro, dos afetos... A gente movimenta pos- síveis outras histórias que estão lá, a fim de ativar o imaginário”. Na sequência final, houve interven- ção do amapaense Pablo Cena, com uma performance, sucedida pela atuação de Marco Rodrigues, também conhecido como Marco Bocão, e Natália Nunes, do grupo de dança My House, em ativi- dade em Porto Alegre desde 2007. Eles apresentaram um fragmento do espetá- culo de dança urbana Remix na roda e atraíram parte do público para dar seus passinhos coletivos sob os holofotes. “A roda me ensina que o universo das coisas está aqui, na nossa mente. E se então, por vezes, a vida pedir, e ela vai pedir, a gente precisa reimaginar, resso- nhar, remixar”, recitou Rodrigues. Com experiência em gestão públi- ca, na capital paulista, e atualmente na coordenação de artes cênicas junto ao Itaú Cultural, o também artista da cena Carlos Gomes raciocinou que, de fato, é importante ir até lugares distan- tes, nas bordas, realizar trabalhos com e não só para, mas acha fundamental também ocupar a cidade como um todo. “Qual o direito à cidade que a gente tem? Nos anos 2000, quando se preenchiam aqueles editais, os formulários pergun- tavam sobre qual era a sua contrapar- tida. Levar sua oficina mais espetácu- lo, por exemplo, até onde a população empobrecida está, de maneira que ela não precisa ir a equipamentos na região central, a exemplo do Theatro Munici- pal. Esse tipo de pensamento é datado, porém, ainda respinga nos dias de hoje. Por isso não se pode perder de vista a noção de ocupar a cidade. Em São Pau- lo, a Cia Mungunzá ocupou um terreno e construiu seu Teatro de Contêiner na
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