Palco Giratório 2025

059 região central e, agora, a prefeitura está querendo tirar o espaço de lá, onde era a Cracolândia. Enfim, tem muitos reca- dos aí acerca das formas de ocupar. E no meio disso tudo, como nós, artistas, ocupa ou não?”, indagou. Dia 5 A última etapa do seminário na Zona Cultural, na tarde de 30/5, sexta, jogou luz sobre o assunto “Na esquina: a cultu- ra das ruas como experiência inventiva”. O historiador, educador popular, escritor, poeta e compositor carioca Luiz Antonio Simas fez uma exposição de cerca de 30 minutos e depois dialogou com observa- ções do mediador Narciso Telles, assim como com perguntas e comentários do público presente ou de quem acompa- nhou on-line. A música, por seu turno, sobreveio fortemente porque o palestran- te, mestre em história social pela Univer- sidade Federal do Rio de Janeiro, é com- positor de canções gravadas por artistas como Maria Rita e Criolo. Ele entoou ao microfone trechos de sambas ou pontos de terreiro sagrados no candomblé e na umbanda para saudar, invocar ou des- pedir-se de orixás e entidades, conforme as religiosidades de matriz afro-brasi- leira. A tarde foi irradiada ainda por três intervenções artísticas da atriz, cantora, compositora e arte-educadora Pâmela Amaro, de Porto Alegre, destaque na cena do samba local e cofundadora do Sarau Sopapo Poético. Numa das passagens, ela dividiu a cena com o escritor e poeta BrunoNegrão, artista expoente da cultura do slamna cidade, que ocupa as esquinas com campeonatos de poesias faladas. Ele mandou os versos de E se Jesus fosse preto (2017), poema-título de um dos qua- tro livros que escreveu e editou de forma independente. Antes deste relato passar à fala de Si- mas, uma nota dissonante. A conversa que estava marcada para iniciar às 14h atrasou pelo menos 30 minutos devido à pressão de pessoas que não consegui- ram entrar no espaço, que lotou. A cal- çada ficou apinhada. Houve gritos e ba- tidas na porta, interferindo na acústica. Coordenadora de artes cênicas do Sesc RS e curadora do Circuito Nacional do Palco Giratório, Jane Schoninger chegou a fazer a introdução da mesa, seguida da artista e anfitriã Patrícia Fagundes, que abriu alas para a breve apresentação da cantora Pâmela, logo interrompida em razão do barulho do lado de fora. Per- cebendo a situação, o pensador carioca convidado tomou a iniciativa de colocar água na fervura. “Fui lá conversar com o pessoal, e conversando a gente acaba se entendendo”, comunicou à plateia. E seguiu o baile – a propósito de “como certos rituais, festas, danças e práticas culturais funcionam como formas de encantamento, criando uma identidade coletiva que transcende as individua- lidades e conecta as pessoas com uma sensação de continuidade e pertenci- mento a uma comunidade ou tradição”, segundo o material divulgação. Gorro marrom na cabeça e camisa de manga comprida – “Estou praticamente escondido em virtude do frio” –, o autor demais de 30 livros sobre culturas de rua no Brasil compartilhou a ascendência nordestina, por parte da mãe pernambu- cana, e sulista, do pai catarinense. Am- bos se conheceram no Rio de Janeiro, onde ele vive. “Sou muito impactado pela experiên- cia domeu chão, domeu lugar, daminha cidade. O Rio de Janeiro é simplesmen- te a maior cidade africana do mundo no século XIX. Por óbvio, não estava na África, estava na América e era no esta- do do Rio de Janeiro. É uma cidade que assistiu a encontros de africanos, o que não ocorreriam no continente da África. Se a gente pensar em termos de tráfe- go negreiro, do horror do comércio de gente, o Rio, como cidade atlântica, só recebeu gente escravizada do que cha- mamos de complexo bantu [ou banto, na África Central], basicamente Congo, Angola, Cabinda e a Costa de Moçambi- que. No Brasil, houve um fenômeno con- tundente de tráfico interno de gente es- cravizada. E o Rio ocupou uma posição de destaque por ser capital da Colônia, substituiu Salvador em 1773, então cor- te, capital do Império e distrito federal da República, e isso atraia muita gente, gerando um sincretismo intra-africano no Brasil” , explicou Simas. “O que isso tem a ver com a Rua. Na minha cidade, se você tira as referên- cias das culturas africanas, não sobrará nada. No campo da cultura não sobra nada. Ninguém aqui é capaz de me citar uma referência contundente da cultura do Rio de Janeiro que não seja vincula- da à presença negro-africana na cidade. Não tem nem para onde correr. E tudo isso, evidentemente, encruzilhado pela presença de múltiplos portugueses, o que já é uma encrenca também. É um sarapatel, um caldeirão. E onde a rua en- tra nisso? Da seguinte maneira. O Brasil é um projeto de estado-nação forjado na lógica da exclusão social. Nós somos um país que tem a exclusão como projeto de Estado. Um país que projetou concentrar a riqueza, a renda, a propriedade, excluir das instâncias formais uma imensa maioria da sua população. A República é proclamada em 15 novembro de 1889, pouco tempo depois da Abolição, em 13 de maio de 1888. Essa nova forma de governo teve de lidar com a questão da massa de homens e mulheres que des- cendia de gente que tinha sido escravi- zada. E a resposta que a República deu para isso foi absolutamente precisa. A República pensou em um projeto de exclusão fundamentando numa lógi- ca de branqueamento. Branqueamento que opera na cor da pele, ou seja, trazer

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