Palco Giratório 2025

060 o imigrante para branquear a popula- ção. Existe uma vasta documentação que mostra que a vinda de imigrantes, facilitada pelo Brasil, está longe de se limitar a trazer mão de obra, mas mar- cada por um esteio ideológico que pres- supõe branquear a população. Além dis- so, temos um projeto de branqueamento cultural, no sentido de limpar, tirar da cultura brasileira as referências de cul- turas que não eram brancas. Em outras palavras, a República projetou um Brasil branco do ponto de vista da cor da pele e da sua cultura. Projeto republicano que, ainda bem, deu errado”, elucubrou. “E aí chegamos ao cerne de grande parte do meu trabalho. A República fe- chou praticamente todos os canais ins- titucionais de construção de cidadania. A escola estava fechada, o ensino su- perior estava fechado, o parlamento estava fechado, o mercado formal de trabalho estava fechado. Isso nos leva a uma questão que é absolutamente crucial: como é que a imensa massa de brasileiros excluídos pelo projeto repu- blicano pôde reconstruir o seu sentido de vida, as suas identidades, os seus laços de sociabilidade, os sentidos de pertencimento ao mundo? E aí, não te- nham dúvidas de que a rua vai ser um espaço crucial. E a rua não apenas no sentido material, mas na dimensão que transcende ao material e tem conexões espirituais muito fortes. Porque a rua é também uma entidade para as popu- lações não-brancas. Na rua, você foi construindo seus sentidos de vida, seus laços identitários, seu pertencimentos. Se a gente pega, por exemplo, o samba como referência. O que é o samba? É um gênero musical? É. Um ritmo? É. Uma coreografia? É. Mas, na minha percep- ção, o samba é muito mais que isso. Eu defino o samba como um sistema de organização do mundo. Porque na cul- tura do samba estão as maneiras como você brinca, dança, canta, bebe, ama, celebra os seus mortos, celebra seus vi- vos, reconstrói identidades que foram perdidas, laços de sociabilidade que fo- ram perdidos, enfim, está reconstruindo tudo ali ”, disse o historiador. Dando sequência a extratos funda- mentais de sua explanação, pediu “mui- to cuidado” a quem, como ele, trabalha “com culturas de festa e de rua”, apu- rando “como a vida foi reinventada e reconstruída nas brechas, nas síncopes, nas frestas do horror”. “Mas isso não pode nos levar a algu- mas coisas muito perigosas. Uma de- las é romantizar o precário, constatado como elemento que mostra as mazelas do projeto de exclusão que se construiu no Brasil, com todas as contradições que vem daí. Outro ponto crucial tem a ver com a rua concreta, metafísica, a rua do sujeito que vai no botequim de equina e toma o seu pingado ou a sua cachaça, a rua que é cruzada com outra rua, a encruzilhada, enfim, seja qual for a rua, como a do trabalhador que passa com o corpo domesticado pelo relógio, seja qual for, esta rua pode ser, primeiro, permanentemente terreirizada. Gosto de pensar o terreiro como um conceito, escrevi um texto a respeito, em 2009, que acabou sendo publicado no livro Pedrinhas miudinhas — Ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros (Mórula Edito- rial, 2013). Conceitualmente, penso o terreiro como qualquer espaço pratica- do na dimensão do encantamento do ser no mundo. Não é um espaço de fi- xidez. Uma rua pode ser absolutamente deserta, mas se na esquina alguém co- meça a cantar um samba, alguém vem e bate na palma da mão e alguém so- pra uma cachaça, você absolutamente terreirizou aquele espaço. A nossa capacidade de terreirizar a rua é espantosa. E isso assusta inclusive as instâncias do poder público e as elites brasileiras que, em geral, têmmedo da rua. Porque a rua é o espaço do inesperado, da terceira margem do rio, do extraordinário, o lu- gar em que você tem que estar disponí- vel para o assombro e ele nem sempre é confortável. É tenso e é intenso”, diag- nosticou. Não sem razão, o encerramento de toda a jornada do seminário ocorreu no meio da tarde de 31/5, sábado, no tradi- cional Boteco do Paulista, onde Simas ecoou uma das suas aulas públicas pro- movidas em bares e praças do Rio de Janeiro, uma atividade que aproxima saberes acadêmicos e populares em um ambiente informal e acessível, como bem demonstrou na véspera, no espaço da Zona Cultural, onde arrematou a sua análise recomendando ainda mais pru- dência e responsabilidade. “A gente tem que ter muito cuidado para não se aproximar da rua com uma simpatia pitoresca, ela é um perigo. A simpatia pitoresca guarda ainda um bom quinhão de preconceitos. Para reconhecer a rua é absolutamente crucial reconhecer as vidas que se redefinem na rua, um es- paço inventivo, não só como materiali- dade, mas como uma espiritualidade de movimento e espanto que reconstroem a vida nas brechas de um projeto de morte que se chama Brasil. O que nós temos de mais espantoso, de mais bonito, de mais incômodo, de mais forte, de mais impac- tante e de mais desconfortável nesse país foi produzido na rua. A rua, portan- to, não é um espaço de resistência, só, é muito mais que isso. É um espaço de reexistência, é um espaço de invenção, de reconstrução da vida onde aparente- mente só a morte poderia imperar”.

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