Palco Giratório 2025
068 criativa, responde às urgências específi- cas de cada confluência. O Festival Dona Ruth, curado por Soraya Martins, ou as investigações de Pablo Sena no Ama- pá demonstram como essa construção grupal é sempre situada, contingente, responsiva às demandas éticas especí- ficas de cada contexto. A provocação “só somos se nós” ga- nha densidade filosófica: não se trata de dependência ontológica, mas de an- terioridade ética – o eu nasce da res- ponsabilidade pelo Outro que sempre já me antecedeu e constituiu como sujeito responsivo. As manifestações cênicas brasilei- ras, em sua diversidade territorial e metodológica, oferecem cartografias concretas dessas possibilidades rela- cionais. Cada expressão – do carnaval carioca ao drama amazônico, do aqui- lombamento paranaense às criações comunais gaúchas – investiga formas específicas de habitar o “entre” que constitui toda verdadeira comunidade. Sob mediação de Narciso Telles e com performance das Batucas, inves- tigou-se como essas expressões perfor- máticas efetivamente performam ou- tras possibilidades de existência grupal – possibilidades já vivenciadas nos pal- cos, ruas, terreiros e quilombos contem- porâneos que recriam cotidianamente a arte ancestral de “estar junto”. SEGUNDO DIA QUANDO A ACESSIBILIDADE REDEFINE OS TERMOS DA CRIAÇÃO Se o primeiro dia nos convocou a re- pensar as formas de “estar junto”, o se- gundo dia deslocou o debate para um arcabouço conceitual do acesso que questiona os fundamentos do que en- tendemos por “normalidade” e “inclu- são”. Sob a mediação de Marcia Bersel- li, a mesa ACESSIBILIDADE NA CENA posicionou-se como aprofundamento analítico das questões de alteridade e responsabilidade ética. A contundência das discussões expôs a falácia da “inclusão” como estratégia de normalização, abrindo caminho para uma compreensão do universal que de- safia as narrativas hegemônicas. O aces- somostrou-se como questão central para qualquer reflexão séria sobre o “nós” que não reproduza exclusões e violências. Neste contexto problematizador, Es- tela Lapponi, performer, videoartista e jornalista paulistana, apresentou seu incisivo Manifesto Anti-Inclusão, de- monstrando como a inclusão frequente- mente propõe hierarquia de capacidades e é incapaz de ver e enxergar a singula- ridade da corporalidade, funcionando como mecanismo de validação da nor- ma e subordinação do diferente. Esta abordagem questionadora ali- nha-se com os disability studies - como os trabalhos de Tobin Siebers sobre “teoria da diferença complexa” -, que problematizam a “normalidade” como constructo social e político, expondo-a como ideal normativo que exige do fí- sico divergente adaptação à hegemonia capacitista. Mais que problematização, Estela pro- põe reexistência através de seu conceito de “materialidade intrusa” – feia, frágil, alegre, indigesta e com humor – que não surge como anomalia a ser corrigida, mas como agente de desarticulação e criação de novas realidades. Esta corpo- ralidade redefine a divergência como vi- vência e identidade política, fonte ines- gotável de produção de conhecimento e arte que se recusa a ser invisibilizada. A partir de sua trajetória no espetá- culo Capenga, Estela demonstrou como a marcha “manca” se torna coreografia e amarrar o tênis com a boca se cons- titui uma “virtuose deaf” – excelência performática que supera a “bipedia com- pulsória”. Não se trata de desvio, mas de caminho para invenção, propondo a sin- gularidade como “tecnologia” de existên- cia que gera novas formas de maestria. Explorando outro viés, Rafael Braz, audiodescritor com divergência visual e sócio da Mil Palavras Universalização Cultural, trouxe a análise para a vivência concreta da criação artística: “Eu não tô ajudando porra nenhuma, eu tô traba- lhando aqui, eu sou audiodescritor.” Seu depoimento superou o desabafo pessoal para se tornar exigência de re- conhecimento, expondo a violência sim- bólica que reduz a agência de artistas di- vergentes à caridade. Com mais de 400 produções acessibilizadas, Rafael de- mandou transição de uma prática “ver- tical” – onde sujeitos normativos pro- duzem para pessoas divergentes – para abordagem horizontal, onde a expertise da comunidade divergente é intrínseca ao percurso criativo. Nessa linha argumentativa, Letícia Schwarts, mestre em Artes Cênicas pela UFRGS, acrescentou investigação sobre como a audiodescrição cênica não pode ser simples transposição de técnicas ci- nematográficas, mas deve considerar a especificidade da vivência performática. Sua pesquisa evidencia como o trabalho de universalização exige compreensão profunda da linguagem performativa. Trata-se de demanda por justiça in- telectual, onde o saber-criar do físico di- vergente é central para redefinir práticas artísticas e estética cênica. Ampliando o questionamento às nor- matividades, Cláudio Mourão (Cacau), poeta e professor no Instituto de Letras da UFRGS, conferiu centralidade à luta por reconhecimento da Libras e cultura surda, rechaçando a normatividade ora- lista que historicamente tentou apagar essa língua. O questionamento provocativo de Ca- cau – “Vocês sabem a minha língua? ... Vocês são divergentes? Eu não sou di-
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