Palco Giratório 2025

069 vergente. Vocês que são” – inverteu a lógica capacitista, expondo a limitação da maioria em se conectar com cultura e língua estabelecidas. Este deslocamen- to move o foco da “falta” do surdo para a “falha” da sociedade ouvinte. Diante dessa complexidade, surge com força a compreensão de que a demanda por acesso universal não é prerrogati- va exclusiva da comunidade divergente, mas responsabilidade compartilhada. A provocação às “bípedes safadas” consti- tui chamado para implicação ativa, des- colonizando o espaço da reivindicação. A convocação ética para tornar omun- do acessível não depende de “boa vonta- de”, mas nos constitui como sujeitos éti- cos sempre responsáveis pela dignidade do Outro. TERCEIRO DIA QUANDO A PEDAGOGIA SE TORNA ATO DE REBELIÃO O terceiro dia elegeu a instituição edu- cativa como epicentro de reflexão: a com- preensão deste ambiente como lugar po- lítico, de criação do mundo. Sob a mediação de Vera Bertoni, do- cente titular e pesquisadora da UFRGS, a mesa “ESCOLA COMO LUGAR DE CRIA- ÇÃO” superou a visão instrumental e bu- rocrática de um campo de ensino para afirmá-lo como território de invenção de realidades possíveis. Esta ótica conec- ta-se organicamente com as discussões anteriores sobre o “nós” coletivo e a in- clusão, mostrando como o ambiente edu- cacional pode ser o cadinho onde essas utopias se materializam em práticas pe- dagógicas concretas. Nesse contexto de ressignificação do campo educativo, Dedy Ricardo, artista da cena e educadora do Colégio de Apli- cação da UFRGS, apresentou-se como síntese viva de insurgência pedagógica. Definindo-se como “mulher ativista, ar- tista engajada, docente combativa, mãe militante”, Dedy sintetizou em sua pró- pria existência um ato político, um corpo que é manifesto, um currículo vivo que resiste e ensina. Sua abordagem de “enegrecer os tons da pedagogia da cena” no Colégio de Aplicação da UFRGS constitui evidência prática de como a expressão performá- tica pode ser motor de mudança, ato de descolonização curricular e promoção de representatividade que combate o epistemicídio operante nas estruturas educacionais. Ao valorizar brincadeiras africanas e afro-brasileiras, ela expande o repertório educativo e oferece protago- nismo a narrativas e corpos historica- mente marginalizados. Dialogando com essa perspectiva in- surgente, Carlos Modinger, ator e docente no curso de Artes Cênicas/Licenciatura da UERGS, trouxe análise da potencia- lidade utópica da instituição com sua realidade muitas vezes precarizada e “achincalhada na cultura atual”, alvo de discursos midiáticos negativos e políti- cas que desvalorizam educadores. Modinger denunciou com veemência a presença policial e a exploração de do- centes temporários, que transformam a instituição educativa, em vez de refúgio e libertação, em local de domínio e opres- são. No entanto, sua crítica se transfor- mou emapelo apaixonado para que os ar- tistas percebam o ambiente educacional como território de enfrentamento, campo fértil para semear interesse pelas artes performáticas. O convite para “escolarizar a cena” e “teatralizar a instituição” desafia a per- cepção comum, instigando os artistas a integrar a arte ao cotidiano e à formação cidadã como elemento intrínseco à cons- trução do conhecimento. Constitui forma de resistir à instrumentalização da edu- cação e reafirmar seu potencial humani- zador. Nessa direção de ressignificação do ambiente educativo, Tom Menegaz, ator, pesquisador e educador da Universidade Federal de Uberlândia, apresentou a es- tratégia do “drama” como potente proce- dimento de criação na instituição, trans- formando a sala de aula em território de construção coletiva de uma narrativa ficcional. A dimensão prática dessas reflexões teóricas ganhoumaterialidade através da apresentação do grupo de artes cênicas do Colégio de Aplicação da UFRGS, coor- denado por William Molina e Fernanda Rocha. Os depoimentos dos estudantes mostraram de forma tocante a transfor- mação pessoal que a expressão perfor- mática operou em suas vidas. Contudo, as intervenções da plateia trouxeram camadas adicionais de com- plexidade ao debate, evidenciando que essas experiências transformadoras ocorrem em contexto de crescente pre- carização educacional. Como coordenador do projeto Arte de Sinalizar, Cacau trouxe problematização sobre “intérpretes porcaria” que minam a vivência do público surdo. Ao afirmar “Eu tenho o direito de ter as mesmas informações e ter essa emoção. Eu quero chorar também”, ultrapassou a questão técnica para tocar a dignidade do acesso à arte em sua totalidade.

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