Palco Giratório 2025

070 Diante desse cenário de ataques à edu- cação pública, as estratégias de enfren- tamento propostas pelos participantes foram transparentes: conhecer as dire- trizes legais, como a BNCC (Base Nacio- nal Comum Corricular), para “saber usar a seu favor” (Tom Menegaz) e lutar para fazer valer os direitos, carregando consi- go as leis de educação antirracista (Dedy Ricardo). Entretanto, foi Dedy Ricardo quem propôs a solução mais estrutural para a questão nas universidades: os “concur- sos afirmativos”. Seu posicionamento contundente – “Essa vaga é para a indí- gena. Ponto. Essa vaga é para o educador e para a educadora negra. Ponto. Não existe a discussão” – constitui posicio- namento inequívoco, estratégia para “co- lorir os tons” da academia e combater o racismo desde a raiz da formação. O terceiro diamostrou que a instituição educativa é mais um ambiente onde a cena pode acontecer, como também terri- tório fundamental onde se decide o futuro das relações humanas, onde se forjam as subjetividades que construirão ou des- truirão as possibilidades de um mundo mais justo e acessível. QUARTO DIA QUANDO OS CORPOS OCUPAM E INVENTAM TERRITÓRIOS Se o terceiro dia nos trouxe a escola como campo de forja da imaginação e de pedagogias da rebeldia, o quarto dia expandiu essas considerações para a complexa trama metropolitana, desdo- brando a cena na cidade e entrelaçando a expressão performática com as urgên- cias sociais e ambientais que pulsam no tecido citadino. Amesa OCUPAÇÕES E INVENÇÕES DA CENA: NA TRAMA DA CIDADE, sob a me- diação de Lucienne Guedes, dramaturga e integrante fundadora do Teatro da Ver- tigem, iniciou com uma performance de memória e enfrentamento. Lucienne nar- rou a trajetória audaciosa do Vertigemem apropriar-se de ambientes não conven- cionais – uma igreja, um hospital desa- tivado, um presídio, uma passarela sub- terrânea –, procedimento que se alinha às teorias de performance site-specific, onde o local específico torna-se coautor da obra, transformando territórios urba- nos em dramaturgia viva que expõe as camadas históricas e sociais do lugar. Esta estratégia evidencia como o am- biente citadino é coadjuvante, um texto vivo que pulsa histórias, violências e dis- putas. A apropriação artística constitui intervenção corajosa que provoca o es- paço, expondo suas fraturas e memórias mais profundas. A cidade pode “devolver golpes”, exigindo constante reorganiza- ção e análise sobre a ação artística em ambientes públicos. Na direção de ruptura epistemológica, Barbara Matias Kariri, criadora da cena e curadora indígena da etnia Kariri, trou- xe a ótica descolonizadora para o centro do debate. Integrante da Coletiva Flecha Lançada Arte e do Museu-Vivo das Mar- recas Kariri, Barbara questiona a história eurocêntrica da performance e propõe uma inventividade enraizada nas cultu- ras indígenas e negras. Sua proposta de reescrever narrati- vas e “abrir os microfones” para vozes silenciadas por séculos de colonialismo ressoa como grito por justiça e reconhe- cimento. Sua menção ao “memóricídio” – a violência de apagar memórias, como a construção de uma catedral sobre um cemitério Kariri – conecta-se com as considerações sobre interseccionalidade. Esta denúncia lembra que as cida- des são erguidas sobre corpos, histórias e ecossistemas apagados. O conceito de “plantio” e “reflorestar imaginários” surge não como metáfora poética, mas como ação de insurgência e cuidado, busca por solo fértil – físico, cultural e espiritual – que se torna ato de esperança e recons- trução contra a lógica predatória da urba- nização colonial. Acrescentando nova dimensão a essa compreensão crítica da cidade, Eber Marzulo, professor da UFRGS, trouxe a relação entre humanos e não-humanos. Referenciando Isabelle Stengers e a ideia de “desinfeitiçar” o mundo do feitiço invi- sível do capitalismo, Eber mostrou como a exploração da natureza e do trabalho se naturaliza como parte “normal” do siste- ma. A noção de “reativar” ou “retomar”, ins- pirada nas experiências indígenas e qui- lombolas de Nego Bispo e Silvia Rivera Cusicanqui, sugere aliança fundamental com o mundo das plantas, animais e rios, contrapondo racionalidade instrumental a sabedoria cosmológica. Esta ótica ecoa as análises sobre aquilombamento, mas incluindo a dimensão não-humana da insurgência. A interconexão com o não-humano foi demonstrada de forma impactante pela menção ao “rio que retoma seu curso” em Porto Alegre após as enchentes de 2024. Osmapas das inundações espelhavamos antigos leitos dos rios, constituindo lem- brete contundente da memória da terra e da persistência da natureza em afir- mar sua própria lógica. A criação, nesse contexto, pode ser a linguagem que nos reconecta a essa sabedoria ancestral e planetária. Concretizando muitos desses concei- tos teóricos, Jorge Alencar e NetoMacha- do, da Dimenti Produções Culturais, fala- ram sobre o trabalho Biblioteca de Dança, em circulação pelo Palco Giratório. Ao apropriarem-se de bibliotecas – ambien- tes tradicionalmente associados ao saber formal e ocidental – e transformar cria- dores em “livros vivos”, eles inventam contranarrativa ao “memóricídio”, ques- tionando a hegemonia da escrita e do ar- quivo estático.

RkJQdWJsaXNoZXIy NjI4Mzk=