Palco Giratório 2025
076 Celebrar a festa coletiva! por Fernando Yamamoto Fernando Yamamoto é diretor, professor e pesqui- sador de teatro. É um dos fundadores do Grupo de Teatro Clowns de Shakespeare [RN]. Uma das coisas de que mais sinto falta na vida profissional hoje é aquele frisson que chegar a uma nova cidade, a um novo festival ou a um novo teatro para montar me causava quando come- cei a circular com meu grupo. A alegria de poder seguir compartilhando nosso trabalho com novos públicos, reencon- trar amigos e fazer novas parcerias segue sendo algo muito precioso nesta lida de artista, mas aquela excitação diante do “admirável mundo novo” que surgia à minha frente inevitavelmen- te se foi, e dessa sensação só restaram boas memórias. No final de maio de 2006, um jovem grupo potiguar que respondia ao inco- mum nome “Clowns de Shakespeare” começava a sair de casa e levar seu teatro pelo país. Abrindo picada para muitos outros grupos do Rio Grande do Norte que viriam depois, fomos os pri- meiros do nosso estado a participar do Palco Giratório, o mais importante pro- jeto de circulação de artes cênicas do Brasil já naquela época. A primeira pa- rada – de muitas que viriam – foi justa- mente no Rio Grande oposto ao nosso, o do Sul. Tudo era novidade e, ao chegar- mos, descobrimos que não era só para nós: o primeiro Festival Palco Giratório RS estava sendo inaugurado, e estáva- mos tendo a honra de começar essa his- tória que agora chega à marca dos vinte anos! Conhecemos e compartilhamos a programação desse festival debutante com tantos outros grupos brasileiros, como Oigalê, Vilavox, Teatro Andante, Fudidos Privilegiados etc., além de – e principalmente! – com o público porto- -alegrense, numa verdadeira celebra- ção do fazer teatral coletivo. Em duas décadas, muito mudou: o teatro, os grupos, o mundo! A princi- pal causa é esse fenômeno que, com a enorme colaboração de dispositivos eletrônicos pessoais que ocupam nossa vida em quase todos os aspectos, vem isolando e individualizando os proces- sos e minando as vivências coletivas. Isso acontece na vida em geral, mas também se reflete diretamente no teatro que é feito no Brasil hoje. Não tem sido raro o discurso de que o Teatro de Grupo é um fenômeno ana- crônico. Parte dos pensadores e dos faze- dores teatrais vem tentando, a todo custo, relegar as experiências coletivas conti- nuadas a um lugar de desimportância na cena contemporânea do país, sob a ale- gação de que essa forma de organização não cabe mais nas estruturas sociais e de relacionamento dentro do teatro. É uma situação muito frequente: jo- vens artistas que são componentes de dois, três, cinco ou mais coletivos tea- trais concomitantemente. É como se a fluidez dos relacionamentos interpes- soais contaminasse a forma de organi- zação dentro do teatro também. Porém, o que pode parecer um modelo que fa- vorece a autonomia e a independência quase sempre mascara uma incapaci- dade que vem assolando e adoecendo a sociedade, dentro e fora do teatro: a de se relacionar coletivamente. Diante da inabilidade para o chamado bom embate, ou seja, a disputa de pen- samento, a disposição para conviver com as diferenças e encontrar consen- sos mais ou menos harmônicos — coisas que fazem parte do DNA do viver [e tra- balhar] emgrupo —, parece que a solução mais fácil – ou, talvez, a única possível – é ter muitas cartas na manga para, diante das primeiras dificuldades de en- frentar o outro, rapidamente abrir mão daquele projeto, ainda que temporaria- mente, e tentar encontrar ecos imediatos a esses desejos em outro lugar. Assim, o processo de individualiza- ção do teatro vai ganhando força, refleti- do inclusive na proliferação de criações que tratam de questões que interessam
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