Palco Giratório 2025

077 unicamente à própria pessoa que está em cena, e o caráter político — com “p” maiúsculo — das artes da cena vai es- morecendo. Ainda assim, há quem afir- me que defender grupo na atualidade é ser dinossauro. Eu, Tiranossauro Rex confesso, defendo com unhas e dentes o contrário: No entanto, para entender a impor- tância desses projetos coletivos, é preci- so ampliar o olhar para a rede de atra- vessamentos de que a permanência e a continuidade do Teatro de Grupo neces- sitam para acontecer. O público, obvia- mente, é a primeira e mais importante camada disso; as políticas públicas, em qualquer esfera, são igualmente funda- mentais, uma vez que a atuação dos gru- pos tem caráter público e, portanto, exige que sejam fomentados pelos poderes go- vernamentais, diante de todos os bene- fícios que trazem à sociedade; e, dentre diversos outros agentes, um deles se co- loca como chave na circulação, fruição e intercâmbio entre os grupos: os festivais. Da mesma forma que é necessário celebrar e reconhecer as trajetórias de grupos longevos, que carregam em suas histórias várias décadas de vida, pelo caráter público e multiplicador que têm, o mesmo precisa ser feito com os festi- vais. Dos mais diferentes tipos, alguns atuam mais diretamente no suporte à manutenção dos grupos, como aqueles realizados pelos próprios coletivos e, portanto, a relação coletiva já está pre- sente em seus DNAs. Pelo seu vínculo ao projeto Palco Giratório [cuja essên- cia se baseia em uma programação eminentemente formada por grupos], o Festival Palco Giratório RS acaba na- turalmente herdando essa vocação. Da- qui de longe, fico imaginando a riqueza que é para o público, artistas e grupos gaúchos poderem ver, apresentar e in- tercambiar durante quase um mês de intensa programação ao longo de vinte anos, junto a grupos de todo o país. Por isso, entender a relevância de uma ação continuada por vinte anos, como o Festival Palco Giratório RS, é re- conhecer sua atuação na formação de público, na capilarização, na formação e na fruição das artes da cena do Rio Grande do Sul e do Brasil, promovendo encontros cujos desdobramentos são incalculáveis quando colocados nessa perspectiva histórica ao longo de tan- tos anos. Por mais que não seja algo que eu cos- tume ou goste de fazer, acho que, em al- guns casos – como este – é necessário também individualizar créditos, para que a brava atuação de algumas pessoas não sofra o injusto apagamento. Pensar no SESC RS e no Festival Palco Giratório RS sem mencionar Jane Schoninger é impossível. Daqueles/as programado- res/as do SESC que estavam na época da nossa primeira circulação no Palco Giratório até hoje, arrisco dizer que, se não for uma das únicas, é a única que permanece em todo o país. Essa perma- nência garante ao festival não apenas uma expertise que só se aperfeiçoa ano a ano, como também um dos principais pontos de defesa do teatro de grupo, que é a continuidade no seu conceito. Não há dúvidas de que o trabalho liderado por Jane traz uma leitura ampla da cena teatral brasileira nas últimas duas déca- das, gerando um recorte vasto e diverso; tanto é que, após alguns anos, o festival passou, inclusive, a contar com obras convidadas que não estavam circulando pelo Palco Giratório, complementando o olhar para uma programação que nunca se satisfez em ser apenas uma mostra de espetáculos. Lançar-me ao exercício de lembrar daquela experiência de 2006 foi repas- sar boa parte da minha trajetória tam- bém. É curioso como realmente “a pri- meira viagem de Palco Giratório a gente nunca esquece”, porque, ao percorrer esses recônditos da memória, conse- gui lembrar vividamente da chegada à cidade, do hotel que ficava do outro lado da rua do SESC, da montagem, do teatro, dos aplausos efusivos nas apre- sentações das duas obras que levamos e, principalmente, da excitação daque- le jovem diretor que começava a alçar voos maiores do que jamais havia ima- ginado. Fico daí imaginando quantas histórias semelhantes aconteceram ao longo dessas décadas; quantas trajetó- rias cruzadas e impulsionadas pelo que ocorreu ao longo de vinte anos nesses palcos e ruas porto-alegrenses. Se tivéssemos um Festival Palco Gi- ratório completando vinte anos, neste 2026, em cada estado do país, não tenho dúvidas de que o teatro brasileiro hoje seria completamente diferente e, arris- co mais, nosso país também seria mui- to diferente. Que celebremos esse marco tão relevante, apontando para muitas décadas vindouras, e que esse festival inspire outras experiências assim, que elevem a ideia de festival à sua verda- deira potência e função: a festa, a cele- bração, a troca e o encontro. o mundo nunca precisou tanto de projetos coletivos continuados e, dentre eles, o Teatro de Grupo é uma das tecnologias mais sofisticadas que existem.

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