Botas Batidas
0 1 9 Morrer é mudar-se provisória e definitivamente para a memória dos outros Começa como é possível começar. Com uma asfixia contida. São 5 horas esticadas da madrugada de do- mingo. Sou avisado com um silêncio equilibrado en- tre os dentes. Em despertar já acordado; o som que não precisou tocar mais de uma vez: Neno, o pai morreu! Ainda mal posto sobre os pés, de súbito, lembrei como ele me contaria se pudesse. Tenho certeza que ele diria “entreguei a rapadura, bicudinho”! Daria um sorriso idiota depois de uma gargalhada de arrancar lágrimas. Apenas pensei em minha mãe. Perguntei como ela estava. A Mana descreveu que ela verificava cada cen- tímetro do corpo dele como se fosse possível encontrar um fio solto que a levasse de volta ao labirinto criado por eles ao longo de quase 60 anos. Ela não estava per- dida. Tão pouco desacreditada. Mas nada poderia fa- zer. Eu podia imaginar os seus olhos verdes inundados de ummilhão de gotas salgadas que tornavam seu ros- to cada vez mais rubro. Eu não podia fazer nada. Nin- guém pode. Perguntei pelo Caco, meu irmão mais velho que du- rante toda a internação do pai esteve ali pari passu. Quinta-feira, exatos dez dias antes de sua morte, o Caco fez um vídeo. Gravou o pai respondendo de for- ma automática. Erguido, sentado na cama ele simu- lava diálogos e gesticulava com as mãos explicando algo ou fazendo contas em uma máquina imaginária para pessoas imaginárias.
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