Botas Batidas
0 2 0 Fiquei emocionado. Pensei que ali se iniciava a re- cuperação definitiva que aguardávamos. Ele morreu. Despertou apenas para dizer a hora. E eu não conseguia parar de pensar nele tentando me jus- tificar a sua morte. Como se isso fosse, naquele mo- mento, um diálogo. Dez dias. Dez filhos. Fiz a conta para exercitar a minha obsessão por encontros ma- temáticos que nunca dizem nada, mas permanecem. Dez dias. Um para cada filho. Talvez ele tenha partido sem saber. Talvez tenha partido como sempre me confessou: louco. Ele que- ria morrer louco. “A loucura é uma delícia”, dizia em nossas conversas que se estendiam por qualquer que fosse a madrugada. “Nesse mundo torto, ficar velho e perder a consciência não é perder muita coisa”. To- mávamos café. Chá. Leite quente. Sorvete. “O de coco é o melhor!” Ouvindo música clássica ou algumas no- vidades que eu teimava em apresentar. Coisa de filho provocador. Depois ele me surpreendia comentando a música. Sorria muito das letras. Todos que tiveram contato com ele ficavam envolvidos em suas histó- rias bizarras. Tiradas de uma mente criadora. Como se quase tudo pudesse ser instantâneo; ele surpreen- dia. E no meio das reticências entrava no quarto fa- zia uma piada e era tudo uma alegria. Lia alguns tre- chos de filosofia. Era cômico e pessimista. Admirava o Schopenhauer sem reservas e guardava distância com trechos. Aquilo era um bálsamo. Um desamparo otimista. Trágico. Era bom! O primogênito colocou junto de seu corpo um mar- telo. Curioso. Eu lembrei que o pai afirmava que o mar- telo era a única ferramenta capaz de consertar o seu
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