Botas Batidas

0 4 4 o pai iniciou um sopão. Sentados ao redor da mesa da cozinha, enquanto a panela fervia o caldo, eu termina- va de tocar Gatinha Manhosa. O Polaco chorava a cada estrofe e, no instante que acabava, ele pedia para tocar de novo. Eu, percebendo o delírio, não poderia negar o pedido. Toquei mais de vinte vezes aquela música. No outro dia, enquanto o Joca fazia um ramo de flores do campo para se reconciliar com a “cumadre”, como costumava chamar a mãe; nós entramos em um dos quartos, e lá estava exatamente na mesma posição em que foi deixado: o Polaco. Rimos muito. No momento em que o pai preparava um café forte eu disse: “São uns loucos esses romanos”, parafraseando Obelix. Ao que ele disse: “São amigos; quem procura amigos perfeitos não quer amizade, quer negócio. Ou tu és amigo ou não és.” . . . A hora finda o dia; eu não sei em que parte dele estar. A noite se torna mal dormida, longa e sem previsão. Vou não-vou. Visito pequenos deixados que se perceba em paralelo com novos dias. Outros dias. A gente nun- ca sabe. Tempo é de verdade a única coisa que realmente te- mos; justamente por que não o podemos guardar. Ape- nas dispor em boa companhia. – Aproveita o dia. Aproveita o dia, bicudinho. A gente nunca sabe quando ele termina.

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