130 Não há espírito literário tão pujante na Rua da Praia quanto ao da anti- ga Livraria do Globo. Não importa se o cidadão tenha nascido depois de seus tempos áureos, a Livraria do Globo sempre será um marco cultural indissociável à Rua dos Andradas e ao Centro Histórico da capital gaúcha, lembrada ainda pelos contemporâneos como a “Globo da Rua da Praia”. Décadas se passaram e o templo das letras, de intelectuais que forjaram a cultura gaúcha, como Veríssimo e Quintana, se faz ainda presente no ima- ginário do porto–alegrense imortalizado pelos traços de Armando Boni. O ano era 1924, dois anos após o bicentenário da Independência do Brasil, data festiva para a nação, quando a cidade de Porto Alegre se modernizava na busca de novos ares não provincianos. Década em que os mais em- blemáticos edifícios eram erguidos como a Biblioteca Pública do Estado e o novo Palácio do Governo, a nova Catedral Metropolitana e o viaduto Otávio Rocha saiam do papel. É neste contexto progressista de negação ao império e consolidação da República que a livraria e papelaria fundada no ano de 1883 se tornava a editora que viria a ser uma das mais importantes do Brasil, e adentrando o século XX, necessitava de uma ampliação. Já consagrada em seu endereço na Rua da Praia, Armando Boni é contratado pelos gestores da Livraria para projetar um novo edifício aos fundos, para abrigar as oficinas e depósitos da editora em um lote conectado com aces- so pela Rua José Montaury, voltado para o norte. No ano de 1924 se erguia o edifício e a fachada norte construída pela empresa Boni e Ferlini com a arquitetura de Boni que não fugia da linguagem arquitetônica republicana respirada pela cidade já antes da década de 1920. A linguagem do “não estilo” que chamamos de Ecletismo.

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